sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Oguntec é citado como programa referência em tecnologia na Câmara de Salvador


Durante sessão ordinária na Câmara Municipal de Salvador, realizada nesta quarta-feira (16), o Programa Oguntec do Instituto Steve Biko foi destacado pelo vereador Sílvio Humberto (PSB) como referência no fomento à ciência e tecnologia. “Nossos jovens devem entender que não basta serem usuários das tecnologias. Elas e eles podem ser produtores de ciência. Por isso nós louvamos a iniciativa, do Instituto Cultural Steve Biko, que por meio do seu projeto Oguntec já ganhou prêmios e se tornou uma referência internacional”, destacou o socialista.

O programa OGUNTEC consiste em um conjunto de ações destinados ao fomento à Ciência e Tecnologia, que tem como público alvo os estudantes afrodescendentes oriundos das escolas públicas estaduais, oportunizando aos mesmos uma educação científica que possibilite sua melhor interação com os avanços científicos e tecnológicos.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Bikodisse Entrevista: Lamartine Silva



1.      Fale-nos um pouco sobre sua atuação política.

Sou Lamartine Silva, 43 anos, membro do curso Kwetu, militante negro da organização de hip hop Favelafro do Maranhão, sempre participei de formações e seminários ligados a questão racial no Brasil, Itália, Bélgica, França e São Tomé e Príncipe, cursei até o ensino médio.

2.     Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?
                                        
Sou fundador do Movimento Hip Hop no estado do Maranhão, a organização que ajudei a fundar foi o Quilombo Urbano, depois saí dessa organização e fundamos a organização Favelafro, onde ajudamos no processo de formação de uma organização nacional de hip hop que se chamava Mhhob (Movimento Hip Hop Organizado Brasileiro). Fui Conselheiro Nacional de Juventude representando o hip hop, em especifico essa organização, e fui também Conselheiro Nacional de Cultura , representando o povo afro




3.      Como é o seu relacionamento com a Biko? O que faz atualmente no ICSB?

Minha relação com a Steve Biko se deu da forma mais harmoniosa possível, respeitando a disciplina colocada pro processo de aprendizado Kwetu, onde todas as palestras e conversas sobre negritude elevou a autoestima e qualificou nossa militância.

4.  Na sua opinião, qual a importância do acesso da população negra ao ensino superior?

Entendo o espaço da universidade como importante na perspectiva de empoderamento, ocupar e enegrecer a academia.



5.  O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES). Como você se vê nesse processo?

Me considero um colaborador nato da Steve Biko, estou disposto a contribuir nesse processo, de alguma forma, e esse deve ser o caminho uma universidade preta.

6.   Qual a importância das aulas do Programa Kwetu na sua formação e atuação enquanto liderança negra? Podemos notar alguma diferença na sua atuação? De que forma?

O curso se torna importante na minha atuação pelo conteúdo rico e diverso que possui, com essa grade curricular minha militância ficou mais qualificada, com uma visão mais estratégica de desafios, que aparecem na vida dos militantes negros do nordeste, graças ao curso a minha militância tem hoje um leque grande no processo de vencer desafios, superar barreiras.

7. Quais os principais desafios que o Movimento Hip Hop enfrenta atualmente no Brasil? Como superar esses desafios?

Movimento hip hop brasileiro, como desafio maior, considero ser um movimento forte politicamente e culturalmente, até por que uma coisa não impede a outra, a superação desses desafios se dar a partir, de entendermos que é necessário existirem produtores negros donos de seus produtos gerados pelo hip hop, assim como o Movimento entender que as organizações políticas de movimentos hip hop devem também priorizar o empoderamento das mesma sem claro esquecer a questão racial.



8.  Como você vê a representatividade da população negra na política e quais estratégias serão necessárias para uma maior representatividade?

O Movimento Negro, tem que entender que devemos enegrecer o parlamento a partir de uma construção coletiva de projetos políticos negros, pois somos a minoria nos espaços legislativo, as leis saem desses espaços, várias conquistas deixam de ter êxito em função de nossa insignificante participação como legislador ou legisladora, não é o único caminho mais devemos sim ocupar esses espaços.

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Entrevista: Nucom - Núcleo de Comunicaçao do Instituto Steve Biko

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Bikodisse Entrevista: Carina Reis




Bikodisse: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória educacional antes do ingresso no pré-vestibular Steve Biko.

Carina Reis: Estudei desde o primário até a quarta série em uma escola chamada Divino mestre, uma escola da ordem cruz de Malta que beneficiava famílias carentes da comunidade em que eu morava (Barbalho). Foi lá que o racismo me machucou pela primeira vez quando, ao falar que queria ser bailarina, uma professora me olhou e me perguntou “você já viu bailarina preta menina? onde já se viu isso”. Esta mesma professora penteava os cabelos das meninas brancas e o meu e de outras meninas negras ela nunca tocou.
Da quinta série ao segundo ano do ensino médio eu estudei no Colégio Estadual Carneiro Ribeiro Filho, porém por determinação do governo, as escolas a partir de então só teriam formação geral, sendo assim fui transferida para o Colégio Estadual Mário Augusto Teixeira de Freitas, que era um dos únicos colégios que ainda teria formação técnica e foi onde concluí meu curso de técnica em contabilidade.
Lembro-me que quando voltei ao Carneiro Ribeiro para pegar meu histórico para me matricular na universidade, a diretora que era a mesma do tempo em que eu estudava, ao me ver perguntou-me quantos filhos eu tinha e se eu estava voltando para a escola. Essa mesma diretora e a maioria dos professores daquela escola nunca incentivaram e nem acreditaram que os alunos de lá pudessem ingressar em uma universidade e quando eu disse o porquê de estar ali, ela se mostrou bastante surpresa e relutou muito a me parabenizar.


Bikodisse: Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?

Carina Reis: Sim, do grupo de jovens na igreja do Santo Antônio Alem do Carmo.
Lá nós trabalhávamos com o intuito de ajudar de diversas formas pessoas necessitadas de carinho e atenção como, por exemplo: orfanatos e abrigos para idosos.

Bikodisse: Quando e como começou sua história na Biko? Enfrentou alguma dificuldade para cursar as aulas do pré-vestibular? Qual (is)?


Carina Reis: Comecei minha história na Biko um ano antes de
entrar na instituição, em 2000. Vi em uma entrevista sobre o Pré- vestibular e me lembro até hoje, o entrevistado era o Ex-professor Geraldo Belmonte, mas só vi a reportagem no final e não sabia a data de encerramento das inscrições. Por conta disso, só após uma semana procurei a instituição para fazer a minha inscrição, -foi o tempo que levei para conseguir a grana da inscrição - mas chegando lá, infelizmente, o prazo já havia acabado. A partir daí começou a minha peregrinação, fiquei o ano todo ligando para a Biko, querendo saber quando teria nova inscrição, e com medo de perder novamente. No ano de 2001 enfim consegui me inscrever, passei por todo o processo e comecei a fazer o curso pré vestibular, daí em diante participei do curso de DH e antirracismo, do POMPA, fui assistente pedagógica na gestão de Josilene Sales e em 2005 fui professora de CCN, o que me deixou extremamente orgulhosa por ter sido capaz de assumir tamanha responsabilidade, visto que trata-se do diferencial da Biko.
As dificuldades que enfrentei foram muitas, eu não trabalhava na época, não tinha “grana” para nada, ia do Barbalho até à Praça da Sé todos os dias andando e voltava andando. Muitas vezes passava a tarde toda na biblioteca com fome. Lembro que sempre surgia alguém do grupo com um biscoito seco, um nego bom que nos salvava, além disso eu tinha um filho de um ano e quatro meses, que muitas vezes ia comigo para a instituição e eu precisava me virar com "bicos" para alimentá-lo. Foi uma época muito louca da minha vida, mas encontrava na Biko e nos colegas que estavam na mesma situação que eu, às vezes melhores ou piores, a sustentação para continuar seguindo e acreditando que a história da minha família podia ser reescrita através de mim.
Depois de muitas batalhas entrei na Universidade Católica no curso de letras vernáculas e fiquei lá por quatro semestres até que mais uma vez tive de abrir mão do meu sonho, por falta de dinheiro tive de abandonar o curso.


Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esse tempo? O que faz atualmente no ICSB?


Carina Reis: Fiquei cinco anos em atividades na Biko,
porém em 2005.2 tive de me afastar porque arranjei, depois de muita luta, um trabalho com carteira registrada, e como há muito eu não tinha trabalho fixo, precisava aceitar a proposta. Por conta disso e de algumas situações ligadas a minha vida pessoal, acabei me afastando fisicamente um pouco da instituição, mas a minha e cabeça e meus pensamentos estavam sempre voltados para tudo que acontecia por lá.
Em 2009 fui convidada por Silvio Humberto a participar de um processo seletivo para ser educadora do Projeto Conexão Direta com o Futuro, uma parceria da Biko com o Instituto Nextel.
Tive meu currículo aprovado e isso culminou na minha volta para a Biko. Hoje faço parte do Nudep e também sou investidora social.



Bikodisse: Em outras edições da Bikodisse, @s entrevistad@s relataram a importância da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) em suas vidas. Com eram as aulas de CCN na época em que você estudou no Pré-vestibular Steve Biko? Que importância essas aulas tiveram na elevação de sua autoestima e formação política?



Carina Reis: Relatei anteriormente sobre minhas dificuldades para fazer o
curso e quando digo que na Biko encontrei esteio, me refiro principalmente ao CCN. Quando estudei, os professores de CCN eram Lázaro Passos e Carmen Flores, quem os conhece pode avaliar quão ricas e motivadoras foram essas aulas, principalmente politicamente. Eu conhecia pouco de mim, da minha história, e minha autoestima fora arrancada de mim desde muito pequena. Na Biko passei a gostar mais de mim, do meu cabelo e do que cada traço representava, passei também a entender tudo que o racismo fez e faz comigo e com meu povo, da religião do meus ancestrais e de como esta foi deturpada e endemonizada, da representação que me faziam crer por muito tempo de qual era o papel de uma criança, uma jovem e uma senhora negra, e que estas jamais teriam seus espaços garantidos.
O CCN me fez renascer, acreditar em mim, no meu potencial, na minha beleza negra, na minha inteligência, na minha força, me fez acreditar na força e apoio espiritual que tenho, vinda dos Orixás e dos meus ancestrais e com certeza muito do que sou hoje foi graças a tudo que tive na Biko e no CCN.


Bikodisse: Quais os principais motivos para a escolha do seu curso de graduação? O que motivou o seu interesse em ingressar na Universidade?




Carina Reis: Na minha família nenhuma mulher tinha curso superior e meu irmão Miguel Ângelo Reis foi o primeiro da família a ingressar em uma universidade. Sempre o tive como referência de inteligência e sabedoria, gostava de como ele falava e interagia com as palavras e isso me fez inicialmente escolher o curso de letras, que era o curso que ele tinha feito. Cheguei a cursar Letras por quatro semestres, mas, por falta de grana acabei saindo. Há dois anos voltei para a graduação e depois de muito avaliar o que eu realmente queria fazer, optei por fazer uma graduação no curso de Gestão de Pessoas, que está ligado diretamente ao que faço hoje e ao que quero fazer futuramente.





Bikodisse: O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES) em 2012. Como você se vê nesse processo?


Carina Reis: Integrada e atuante, desde o levantar do primeiro bloco até a primeira turma formada e daí em diante. Esta Instituição que é um sonhos meu, e tenho certeza que de muitos que passaram pela Biko, é a certeza do começo de uma nova era.


Bikodisse: Você participou da mobilização em prol da isenção da taxa de inscrição no vestibular da Ufba no mês de agosto de 2001. Como se deu essa mobilização?


Carina Reis: Essa mobilização se deu motivada pela ira de sermos reprovados antes mesmo de fazer a prova, o valor da taxa era muito alto como é até hoje, e não achávamos justo que ficássemos de fora por não ter este dinheiro para pagar, lembro-me que Sueli, George e outros, encabeçaram inicialmente esse movimento em um discurso consciente e convicto do que nos estava sendo negado, e nós, movidos pelos mesmos ideais, imediatamente concordamos em entrar nessa briga pela insenção. A Biko nos ensinou a lutar e assim o fizemos, começamos com poucas pessoas, cartazes em cartolina e gritos que ecoavam as ruas do centro, conseguimos mobilizar em pouco tempo pessoas de outras instituições e fizemos muito barulho, gritamos por reparação. Essa foi para mim uma das experiências mais ricas da minha vida e ter conseguido junto com todos que lá estiveram de fato, desde o início, foi muito marcante. Faria tudo outra vez.


Bikodisse: Quando e como teve início a sua participação no Projeto Conexão Direta com o Futuro (parceria entre os Instituto Steve Biko e Nextel)? O que faz neste projeto atualmente?


Carina Reis: Minha participação teve início através de um processo seletivo como já citei acima. Trabalhei muitos anos como operadora de telemarketing, e o projeto precisava de uma educadora de teleatendimento, isso se deu em março de 2009.

Hoje estou efetivada no Instituto Nextel como educadora de técnicas de atendimento e cultura, e venho aprendendo muito com as formações e as experiências de mulheres maravilhosas como Jucy Silva e Maria Luisa, detentoras de muito conhecimento e sabedoria, além do senso de coletividade que é agregado a mim e aos demais colegas sempre.
Contando também com essa nova experiência que é a de trabalhar com o social aliado a parte empresarial que traz uma outra forma de trabalhar, bastante rica.


Bikodisse: O Estado do Rio de Janeiro pretende adotar reserva de vagas para negros em concursos públicos. Qual sua opinião sobre essa medida?

Carina Reis: Precisamos de reparação em todas as instâncias, precisamos ter de volta tudo que por muito tempo fomos privados, entender que não queremos cotas para a eternidade, e sim, queremos isso por tempo suficiente para que possamos ser reparados por tudo que nos foi negado durante todos esses anos.
Essas ações não deslegitimam nem anulam, de forma alguma, a nossa capacidade intelectual.


Bikodisse: Quando e por que você resolveu se tornar uma Investidora Social ? Essa doação tem alguma relação com as aulas de CCN?


Carina Reis: Desde que estudei na Biko sempre tive essa vontade de estar e ajudar como pudesse. Me tornei investidora social em 2009, e sim, tem muito haver com o CCN. Com o CCN aprendemos que o trabalho deve ser continuado e quem melhor que nós, que fomos beneficiados e que conhecemos a seriedade desse projeto, para colaborar? Sou feliz hoje por poder contribuir com o que entendo ser o mínimo para a Biko.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bikodisse Entrevista: João Paulo






Bikodisse: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória antes do ingresso no Consorcio da Juventude.

João Paulo: Antes de participar do Consórcio da Juventude minha trajetória foi um processo consecutivo de boas iniciativas promovidas por organizações sociais públicas e privadas que me proporcionaram aprendizados que despertaram em mim uma maturidade e uma consciência de direito, levando-me a aproveitar todas as oportunidades que a vida me deu, especialmente as de acesso ao conhecimento.

Estes aprendizados adquiridos em outras organizações permitiram-me chegar ao Instituto com clareza do que queria. Eu sabia mais ou menos o que precisava fazer para alcançar as minhas humildes metas, que eram concluir o ensino médio e conseguir um emprego de carteira assinada para ajudar em casa, mas naquela época eu tinha uma frágil “identidade racial”.

Ao longo do processo do Consórcio, no qual era aluno do Curso de Mobilizador Social, fui levado pelos educadores, por meio de debates muito acalorados -o que é padrão para atividades formativas da Biko e outras atividades educativas-, a questionar minha identidade racial, que até então era de mestiço, e superar o processo de autossabotagem que o racismo havia incutido em mim, ao longo da minha vida.

A vivência junto a Biko me deixou como legado a autoconfiança e a segurança para alçar novos voos e ter a plena certeza de concretizá-los, pois a Biko através do Consórcio possibilitou-me a proximidade com pessoas como Cosme, Vilma Reis, Valdo Lumunda, Samuel Vida, Valdecir Nascimento, Hamilton Borges, que com os seus exemplos e histórias de vida mostraram-me que era possível chegar onde eles haviam chegado, e fazer como eles; tirar a população negra da condição de exceção para torná-la regra. Foi também graças a essas influências que me transformei num jovem negro compromissado com a superação do machismo, do racismo e da homofobia


Bikodisse: Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?

João Paulo: Tive a oportunidade de fazer parte do CRIA (Centro de Referência Integral para Adolescentes), inicialmente como jovem ator e depois como monitor. Fui Conselheiro do MIAC (Movimento de Intercambio Artístico Cultural Pela Cidadania) pela Fundação Cidade Mãe - Empresa Educativa de Roma, a primeira organização em que fui “atendido”, sendo a mesma uma das mais significativas em minha história, por dar-me condições de transpor o muro visível que circundava minha comunidade e me apresentar o mundo. Sei que para alguns, isso podo parecer besteira, mas informo que ainda existem jovens que sequer saem das fronteiras de sua comunidade e que não têm condições de conhecer a cidade em que vivem.

Aproveito para externar minha preocupação com esta OSP (Organização Social Pública) Fundação Cidade Mãe, que na atual gestão da prefeitura de Salvador, encontra-se com suas unidades socioeducativas sucateadas, o que a meu ver, é um grande prejuízo para as crianças e adolescentes moradores dessas comunidades, especialmente para a comunidade na qual resido que é Itapagipe.

Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esse tempo? O que faz
atualmente no ICSB?

João Paulo: Depois de terminar o Consórcio Social da Juventude, e por ter conseguido um estágio na época na Caixa Econômica Federal e estar no ano final de conclusão do ensino médio, passei a ficar com pouco tempo, assim participava de uma atividade ou outra promovida pelo Instituto.

Em 2007, se não me falha a memória, fui representante do GRUCON-BA (Grupo de União e Consciência Negra) na Subcomissão de Juventude e Reflexão a Violência da CAMMPI (Comissão de Articulação dos Moradores da Península de Itapagipe), a qual realizava um curso de formação política em parceira com ISPAC, tendo como uma das facilitadoras Nádia, que coordenava na época o núcleo de antirracismo e direitos humanos da Biko. Ela então fez um convite a mim e a outro irmão de militância chamado Ismael, para nos incorporamos ao núcleo, foi quando voltei para a Biko.

Dentro do Núcleo de Antirracismo e Direitos humanos, por meio de um projeto de mapeamento das violações de direitos, em especial aqueles referentes aos fatores raciais e de gênero, apoiado na época pelo Fundo Brasil de Direitos, tive a experiência de levar a discussão sobre DH do centro para as comunidades periféricas de Salvador, fazendo um diálogo com estas comunidades, que objetivava, além de informar, empoderar as mesmas sobre como ter acesso ao sistema nacional e internacional de direitos humanos, e como estas comunidades poderiam usar os mesmos para denunciar as violações de direito que estavam sofrendo. Um dos grandes baratos desta experiência é que a BIKO apresenta para a cidade uma nova forma de discutir direitos humanos associado ao antirracismo, tendo os jovens neste processo não mais como beneficiários, mas como sujeitos, executores, sem falsa modéstia, bons executores.

Não muito tempo depois o Instituto Steve Biko, recebeu o convite, por meio da coordenadora do Núcleo de Antirracismo e DH, Nádia, de ficar responsável pelo desenvolvimento da metodologia e execução do processo educativo do PROGREDH, quando mais uma vez a Biko aposta na juventude, colocando na mão da mesma o importante papel de formar 500 jovens oriundos de inúmeras escolas municipais de Salvador, além de fazer com que estes jovens desenvolvessem ações ligadas aos direitos humanos, antirracismo e equidade dentro das escolas.

Estas duas experiências dentro do instituto fortaleceram meus laços com as organizações e firmaram em mim o compromisso de, cada vez mais, contribuir para que essas ações se propaguem.


Bikodisse: Em outras edições da Bikodisse, @s entrevistad@s relataram a importância da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) em suas vidas. Com eram as aulas de CCN na época que você estudou no Consorcio da Juventude? Que importância essas aulas tiveram na elevação de sua autoestima e formação política?

João Paulo: Pergunta muito interessante, primeiro porque permite-me fazer alguns esclarecimentos sobre o CCN dentro do Consórcio.

Dentro do Consórcio não tive a disciplina CCN, mas sim outra chamada Equidade, que tem alguns conteúdos muito parecidos com CCN. No entanto, a matéria equidade vai muito mais além, o que, para mim, foi uma grande sacada das organizações envolvidas na execução das primeira turma do Consórcio em Salvador, por esta ter colocado na pauta da formação de jovens para o primeiro emprego, a necessidade de preparar os mesmos para o respeito às diversidades. Acredito que esta iniciativa poderia contribuir muito para a redução do preconceito e discriminação.

Destaco também neste processo de consórcio o importante papel que a Biko teve, pelo que lembro, enquanto única organização membro do 1º Consorcio ligada ao movimento negro, para incluir na grade da disciplina de Equidade às questões raciais.

Ah, quase ia terminar de responder esta pergunta sem diferenciar as disciplinas de CCN e Equidade. Então, CCN trabalha as questões raciais e de gênero, e Equidade trabalha as questões raciais e de gênero, além de acessibilidade.



Bikodisse: Quais os principais motivos para a escolha do seu curso de graduação? O que motivou o seu interesse em ingressar na Universidade?

João Paulo: Hoje sou estudante do curso de Pedagogia (6º semestre – EAD) o qual sempre admirei, mas mesmo dentro da universidade ainda sinto-me academicamente incompleto, por estar no movimento social e necessitar de algumas ferramentas que o curso de Pedagogia não ofertava. Por isso, em 2009 matriculei-me no curso de Serviço Social para suprir esta necessidade.


Bikodisse: O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES) em 2012. Como você se vê nesse processo?

João Paulo: Vejo-me, assim como outr@s bikud@s, como colaborador deste processo. Hoje temos muito a comemorar, pois já conseguimos o espaço tão almejo para a implantação da IES.


Bikodisse: Como se dá sua contribuição para movimento de economia solidária? Você acredita que a economia solidária sofreu/sofre alguma(s) influência (s) das religiões de matriz africana? De que forma?

João Paulo: A contribuição que venho dando à economia solidária é fazer com que ela não fique sendo pautada entre os mesmo, e que outros movimentos e organizações a tenham como uma das suas estratégias, por ela não ser fim, mas sim meio para viabilizar as conquistas.
Um dos desafios hoje, no papel novo que estou ocupando enquanto coordenador executivo do Coletivo Para Promoção de Práticas Solidárias Casa de Taipa, ONG de assessoria, consultoria e formação fundada por um grupo de jovens ex-bikudos e membros de empreendimentos de Economia Solidária, é fazer com que a comunidade negra consiga não ter só o empreendedorismo, mas também a Ecosol como caminho. Embora não tenha nada contra ao empreendedorismo, percebo que o mesmo só nos coloca no círculo do capitalismo, do individualismo, da exploração, que a meu ver vem minando um número significativo de iniciativas de geração de trabalho e renda da comunidade negra.

Sobre a pergunta de que a Ecosol sofre influência das práticas cooperativas das religiões de matriz africana; sem sombra de dúvidas, e de outras como as irmandades negras que mobilizavam dinheiro para comprar a liberdade de outros escravizados, os quilombos enquanto experiências de autogestão do trabalho em cooperativas, mais para frente temos as experiência dos nossos irmãos negros americanos, com o movimento Black Power que fomentava dentro da comunidade negra, a prática de uma coisa que a economia solidária chamava de consumo consciente, só se comprava em estabelecimentos que fortalecessem a causa da superação do racismo. Esta iniciativa permitiu a circulação do dinheiro dentro da comunidade, fortalecendo com isso a economia local, o que é um dos princípios que a Ecosol prega.

Bikodisse: Fale-nos um pouco sobre a sua participação na elaboração e implementação do Projeto SOS Sustentabilidade.

João Paulo: Para falar sobre minha participação na elaboração e implementação do Projeto SOS Sustentabilidade acredito que é necessário primeiro falar o que é o mesmo. O SOS Sustentabilidade é um projeto de incubação de empreendimentos solidários das comunidades do Tororó em Base Naval e Santana em Ilha de Maré, ligados a cadeia de pesca e do artesanato do bordado de bilro, fruto da cooperação técnica do Coletivo Para Promoção de Práticas Solidárias Casa de Taipa, Espaço Quilombo e o Instituto Steve Biko.

Dentro desta Cooperação técnica ficou a cargo da Casa de Taipa, no processo de elaboração do desenho da metodologia de incubação que seria aplicada no projeto, o desenvolvimento desta metodologia. Agora, no processo de implementação sou Gerente de Incubação da mesma, estando sobre a responsabilidade da Biko a gestão financeira e administrativa do projeto, além das construções estratégias e pedagógicas para fortalecimento e resgate da história das comunidades quilombolas urbanas. Cabe ao Espaço Quilombo a responsabilidade do processo de monitoramento ambiental e assistência aos empreendimentos da cadeia de pesca e mobilização comunitária.

De acordo com o aprendizado acumulado nestes quatro meses de execução da incubadora SOS Sustentabilidade, acredito que ao final do projeto vamos deixar um bom legado de experiências para que outras entidades ligadas ao movimento negro possam tomá-lo como referência nas suas ações de geração de trabalho e renda.