quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bikodisse Entrevista: Manuela Barbosa







Bikodisse: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória educacional antes do ingresso no pré-vestibular Steve Biko.

Manuela Barbosa: Minha trajetória educacional foi conturbada e impulsionadora ao mesmo

tempo. Iniciei os estudos em uma escola particular de pequeno porte e na mesma cursei todo o ensino fundamental I. Após esse período adentrei ao sexto ano do ensino fundamental II, em uma escola particular de grande porte, mas fui reprovada, pois não possuía os livros solicitados, e por isso apresentava muita dificuldade na compreensão dos assuntos.
Por causa da reprovação, no ano seguinte fui matriculada na Escola Estadual Classe III para repetir o sexto ano, mas adquiri uma doença óssea e por conta dessa comecei a andar de muletas. Por causa da enfermidade e do uso contínuo das muletas, recebia muitos apelidos dos colegas e como não sabia lidar bem com tal situação, pedi a minha família para ficar um tempo sem estudar e eles aceitaram.
Fiquei um ano e meio afastada da escola. Nesse processo de afastamento fiz cirurgia, fisioterapia e me recuperei tanto fisicamente quanto emocionalmente, após isso voltei para a mesma escola muito mais segura então pude concluir o ensino fundamental II.
Já o ensino médio foi mais tranqüilo. Estudei na Escola Estadual Marquês de Maricá do primeiro ao terceiro ano do ensino médio, todos esses três anos foram bastante satisfatórios, pois estudei e comecei a trabalhar informalmente, essa experiência me fez traçar metas e adquirir uma vontade de me desenvolver. Por isso, antes de finalizar o último ano comecei o cursinho no Instituto Steve Biko.

Bikodisse: Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?

Manuela Barbosa: Antes do Instituto Steve Biko nunca havia participado de nenhum grupo ou ONG.

Bikodisse: Quando e como começou sua história na Biko? Enfrentou alguma dificuldade para cursar as aulas do pré-vestibular? Qual (is)?

Manuela Barbosa: Minha história no Instituto Steve Biko começou em julho de 2004. Nesse ano cursava o terceiro ano do ensino médio e não tinha muito conhecimento do que era um pré-vestibular e uma faculdade, pois vivia o mundo do meu bairro onde a realidade “comum” é finalizar o ensino médio e trabalhar, faculdade era uma realidade muito distante.
Porém, na minha escola havia uma educadora de Língua Portuguesa chamada Lúcia Marçal que sempre apresentava questões sociais problematizando o nosso futuro pós ensino médio. Essas aulas tiveram um valor imenso para mim, sendo que comecei realmente a pensar o que iria fazer quando concluísse o ensino médio.
Por ironia do destino, nesse período conheci Carina Reis que já havia sido estudante Biko e em uma conversa falou-me um pouco do Instituto, explicando-me o que era um pré-vestibular e me incentivando a fazer a seleção do mesmo. A princípio fiquei temerosa, pois o curso era à noite e eu não tinha experiência em sair nesse turno, havia também o pagamento e eu não tinha dinheiro. Sabia que iria enfrentar essas dificuldades e então resolvi pedir ajuda.
Lembro-me de ter conversado com Carina e explicado meus temores e ela me estimulou a conversar com meu tio e assim o fiz. O mesmo permitiu que eu fizesse a seleção e disse que pagaria o curso. Assim, participei da seleção, fui aprovada e comecei minha trajetória de bikuda.
No ano de 2004 não passei no vestibular, mas ganhei verdadeiros amigos e o mais interessante, conheci muitos lugares em salvador. Como não havia sido aprovada em 2004 resolvi fazer uma nova seleção em 2005 e fui aprovada, contudo havia um grande problema, meu tio não ia mais poder pagar o cursinho e como eu não era mais estudante do ensino regular, não possuía mais o cartão de meia passagem, o que dificultava ainda mais a situação.
Então resolvi conversar com Mário que na época era diretor financeiro da Biko, expliquei meu problema e ele fez um acordo comigo, dando um prazo para que eu pagasse o cursinho quando eu começasse a trabalhar. Achei essa credibilidade de muita importância, pois queria muito estar no instituto e foi por isso que comecei a dar banca e assim pude não só pagar as mensalidades, como meu transporte também.
Nesse mesmo ano passei no vestibular para Pedagogia.

Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esse tempo? O que faz atualmente no ICSB?


Manuela Barbosa: Meu relacionamento com a Biko sempre foi ótimo. Nesse espaço sempre me senti respeitada e acreditada.
O Instituto Steve Biko durante todo o momento me possibilitou coisas positivas, pois lá fiz amigos-irmãos, adquiri conhecimento sobre minha ancestralidade, e assim fortaleci minha autoestima o que considero de suma importância para qualquer ser humano.
Atualmente faço parte do Núcleo de Tecnologia Educacional (NUTE). No ano de 2006 após entrar na faculdade Olga Mettig fui convidada por Jucy Silva para fazer parte desse núcleo, onde obtive uma experiência profissional enorme ao conviver com profissionais da minha área e por vivenciar o cotidiano de uma instituição educacional. Tal experiência me fortalece até hoje.

Bikodisse: Em outras edições da Bikodisse, @s entrevistad@s relataram a importância da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) em suas vidas. Com eram as aulas de CCN na época que você estudou no Pré-vestibular Steve Biko? Que importância essas aulas tiveram na elevação de sua autoestima e formação política?

Manuela Barbosa: Essa aula é muito especial! Para mim essa disciplina é tão importante quanto as outras necessárias para o vestibular.
No ano de 2004 tive o privilégio de ter Silvio Humberto como professor dessa disciplina, porém era muita informação nova que contrariava minha realidade e isso me fez entrar em conflito comigo, e até mesmo com os conteúdos que eram trabalhados, o que me fazia negar o que era apresentado.
Já no ano seguinte, como estava mais madura, pude não só ouvir o que era dito, mas também comecei um processo de pesquisa sobre algumas personalidades negras e isso foi de extrema importância para mim, sendo que foi através dessa investigação que adquiri criticidade a respeito da problemática racial.
Acredito que o CCN cria situações desafiadoras para vida, pois essa aula possibilita um processo de recriação do “eu”, mas um “eu” muito mais seguro e confiante em si mesmo, no entanto é necessário estar aberto para o novo e ir em busca também das suas verdades.

Bikodisse: Quais os principais motivos para a escolha do seu curso de graduação? O que motivou o seu interesse em ingressar na Universidade?

Manuela Barbosa: Na verdade não escolhi. Pensei em várias profissões como historiadora, jornalista, socióloga e advogada. Lembro-me de ter feito o vestibular para pedagogia por que a inscrição estava barata, mas nem sabia direito do que se tratava o curso. Tinha em mente que necessitava entrar na universidade por saber que era uma maneira de melhorar minha vida, pois a faculdade representava um acesso mais rápido ao mercado de trabalho e com muito mais qualidade.
Porém, hoje sei que nasci para ser pedagoga, amo minha profissão e só faço algo para aperfeiçoá-la. A educação transforma seres humanos.

Bikodisse: O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES) em 2012. Como você se vê nesse processo?

Manuela Barbosa: Parafraseando Martin Luther King, ouso-me a escrever que: Eu tenho um sonho de que, um dia, meus filhos estudarão em uma universidade onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim, pelo conteúdo de seu caráter. Isso me deixa muito mais feliz!
Posso denominar isso de um salto pedagógico que eu quero, que nós queremos. Um lugar que venha ao encontro de nossos anseios, ou seja, um sistema educacional que promova a formação de uma mentalidade social mais justa e que possibilite a formação de um conhecimento racial verdadeiro.
Poder fazer parte desse processo para mim é especial. Acredito que posso contribuir de diversas maneiras, seja ministrando aulas ou ajudando na construção do plano de trabalho , ou seja, quero e vou colaborar de alguma amaneira.

Bikodisse: Qual sua opinião sobre a Lei 10.639/03 e que tipo de avaliação pode fazer sobre sua implementação.

Manuela Barbosa: Acho de grande importância a implementação da Lei nº 10.639 no currículo das escolas públicas e privadas. É visível que a escola é indiferente à população negra, pois continuam sustentando uma história falsa pautada em um comodismo e uma aceitação a respeito da escravidão por parte da população negra, ou a todo momento tentam fazer com que os alunos acreditem que vivem em um país igualitário.
A Lei nº 10.639 surge para possibilitar a formação da identidade da população negra e com isso elevar a autoestima, pois saber que sua história foi marcada de luta e resistência têm forte significância não somente para a formação da população negra, mas também para a criança não negra, pois essa aprenderá a respeitar a diversidade histórica do país.
Contudo, acredito que só a implementação não basta. É preciso uma formação constante para os professores sobre a História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e uma fiscalização também, pois nenhum educador é neutro e ao adentrar a sala de aula levo minhas verdades e meus valores também, por isso o educador precisa estar bem seguro sobre o que vai dizer.

Bikodisse: Como foi para você participar do Projeto Conexão Direta com o Futuro (parceria entre os Instituto Steve Biko e Nextel)? Que aprendizados pode nos contar sobre essa experiência?

Manuela Barbosa: Essa experiência para mim foi muito especial, pois foi através dessa que pude desenvolver-me enquanto profissional. Entrei no Instituto em 2009 na função de estagiária, mesmo ainda sendo estudante, as pessoas que faziam parte do processo confiavam muito em mim e tratavam-me com apreço.
No final de 2009 conclui a faculdade e não poderia mais ser estagiária daí confiaram-me à disciplina de “Acesso a Bens Culturais”, ministrando essa disciplina convivi com muitos alunos e pude reviver um pouco minha trajetória na Biko através da história e do desenvolvimento de cada um.
Foi por meio dessa confiança que aprendi a ser educadora e ter mais certeza no que faço enquanto profissional.

Bikodisse: Qual a contribuição da “Pedagoga Manuela” para a ONG Bahia Street?


Manuela Barbosa: No Bahia Street sou a pedagoga Manuela Barbosa, mas acima de tudo sou
Manuela Barbosa moradora de um bairro humilde, pertencente a família também humilde. Acredito que o importante nesse trabalho que desenvolvo é que muitas vezes o pessoal e o profissional caminham juntos, dessa forma consigo sentir melhor o que as educandas do projeto vivenciam, ou seja, a opressão.
Trabalhar no Projeto Bahia Street para mim é um presente. Observo e luto diariamente para tentar modificar através da educação a realidade de cada educanda. Não é uma tarefa fácil, já que o processo de segregação no Brasil foi muito perverso e nos fez acreditar que o problema é nosso e tentar reverter isso muitas vezes é frustrante e doloroso, pois requer muita sensibilidade e uma vontade extrema que dê certo.
Contudo, saber que já estive na mesma situação e que consegui mudar porque acreditaram em mim é muito mais forte do que qualquer problema e isso me impulsiona a continuar tentando, pois como diria Malcolm X : "O homem branco quer que os homens pretos permaneçam imorais, depravados e ignorantes. Enquanto permanecermos nessas condições, continuaremos a suplicar, e o homem branco nos controlará. Jamais poderemos conquistar liberdade, justiça e igualdade enquanto não estivermos fazendo por nós mesmos."

Bikodisse Entrevista: Julio Cesar




Bikodisse: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória educacional antes do ingresso no pré-vestibular Steve Biko.

Julio Cesar: Quando tinha dois meses de idade fui com meus pais para o Rio, onde fui criado e educado. Fiz todo meu ensino fundamental no Instituto Irajá, e aos dezesseis anos de idade, retornei à Salvador e fiz o nível médio no colégio Nossa Senhora Aparecida, nos Barris, que por sinal ficava em frente a uma antiga sede do ICSB

Bikodisse: Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?

Julio Cesar: Nunca tive a oportunidade de participar de uma ONG.

Bikodisse: Quando e como começou sua história na Biko? Enfrentou alguma dificuldade para cursar as aulas do pré-vestibular? Qual (is)?


Julio Cesar: Minha história começou após sete anos do término do meu nível médio. Ainda não tinha muita expectativa de qual rumo seguir na vida por não ter referências em casa de familiares que fizessem faculdade. Meu tio Juraci Tavares era sócio-colaborador do Instituto e perguntou se eu não queria estudar novamente, aceitei na hora, então ele e minha tia Elizabeth, sua esposa, custearam as mensalidades do curso. Gostaria de agradecê-los pela oportunidade de conhecer a Biko.

Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esse tempo? O que faz atualmente no ICSB?

Julio Cesar: Estudei durante dois anos na Biko, tinha muita vontade de estar mais presente na vida do Instituto. Em 2009 Jucy me falou que tinha uma vaga de professor de inglês em aberto, fui conferir então me apaixonei pelo trabalho. Hoje continuo a dar aula, coisa que faço como muito amor.

Bikodisse: Em outras edições da Bikodisse, @s entrevistad@s relataram a importância da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) em suas vidas. Com eram as aulas de CCN na época que você estudou no Pré-vestibular Steve Biko? Que importância essas aulas tiveram na elevação de sua autoestima e formação política?

Julio Cesar: As aulas de CCN foram um divisor de águas na minha vida, porque até então minha
autoestima estava baixa. Fui diversas vezes discriminado por colegas e por uma professora quando ainda estudava no Rio de Janeiro. Essa professora um dia me disse uma frase terrivelmente preconceituosa, e eu na época não sabia reagir e não entendia o porquê do preconceito. As aulas de CCN da Biko eram muito bem conduzidas e sempre deixavam um gosto de quero mais.

Bikodisse: Quais os principais motivos para a escolha do seu curso de graduação? O que motivou o seu interesse em ingressar na Universidade?

Julio Cesar: Sempre admirei muito a profissão de professor e sempre tive paciência para ensinar, aliado a isso também sempre gostei da língua inglesa e dos ícones da cultura negra americana como Michael Jackson e Louis Armstrong. Então decidi que queria fazer língua inglesa na faculdade, pois teria nível superior, aliado ao aprendizado da língua.

Bikodisse: O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES) em 2012. Como você se vê nesse processo?

Julio Cesar: É uma expectativa muito grande, poder ajudar na concretização desse sonho tão almejado, que graças a Deus, vai acontecer. Quero ter participação ativa nesse processo.

Bikodisse: Como é para você ministrar aulas de Inglês no Pré-vestibular Steve Biko? De que forma as aulas de inglês podem contribuir para conscientização étnica e elevação da autoestima da juventude negra?

Julio Cesar: Pra mim é uma alegria muito grande saber que agente pode dividir nosso conhecimento com outras pessoas. Ao mesmo tempo em que auxilio os estudantes, também aprendo e pratico a língua, a qual infelizmente muitos não têm acesso. A língua inglesa é falada em muitos países do continente africano, a exemplo da Nigéria, além disso, é a língua falada por muitos ícones do movimento negro estadunidense como Martin Luther King ( meu ídolo) e Rosa Parks. Meu grande desejo é que nossa juventude possa estar qualificada para usufruir das benesses de se saber uma segunda língua.

Bikodisse: Você já fez algum tipo de intercâmbio com países de língua inglesa? O que fez ou pretende fazer?

Julio Cesar: Eu nunca tive a oportunidade de fazer intercâmbio em países de língua inglesa. Seria ótimo eu ter essa experiência um dia, pois poderia aperfeiçoar o inglês. Quero fazer sim, sem dúvida.

Bikodisse: Você pode deixar algumas dicas de livros, site e vídeos para as pessoas que querem iniciar um estudo na língua inglesa?

Julio Cesar: Vou deixar algumas dicas de livros que podem ajudar o estudante a aprender a língua: The good Grammar book da editora Oxford e o New interchange da Cambridge são dois bons materiais, além de sites como o: livemocha.com. Escutar músicas internacionais e assistir aos filmes na língua original também ajuda muito.




segunda-feira, 18 de julho de 2011

100 Filmes Que Você Precisa Assistir (Por Márcio Paim)

Durante a entrevista para o Bikodisse, o Historiador Márcio Paim deixou para tod@s @s Bikud@s uma lista de 100 filmes que ele indica por tratarem de questões raciais e históricas.

Vale à pena conferir. Boa sorte!


  1. MALCOLM – X
  2. UM GRITO DE LIBERDADE (A HISTÓRIA DE STIVE BIKO)
  3. PANTÉRAS NEGRAS (BLACK PANTER)
  4. A COR PÚRPURA
  5. MISSISSIPI EM CHAMAS
  6. A OUTRA FACE AMERICANA
  7. BELEZA AMERICANA (EXCELENTE CRÍTICA AO CAPITALISMO)
  8. ASOKA (A HISTÓRIA DA FORMAÇÃO DO IMPÉRIO INDIANO)
  9. SPARTACUS
  10. ALEXANDRE, O GRANDE
  11. TRÓIA
  12. MEU NOME É RÁDIO
  13. OS ACORRENTADOS
  14. FRIDA
  15. DIÁRIO DE MOTOCICLETA (A EXCURSÃO DE CHE GUEVARA NA AMÉRICA LATINA)
  16. O HOMEM QUE COPIAVA
  17. DIÁRIO DE UMA LOUCA (EXCELENTE FILME)
  18. CLEÓPATRA
  19. FIDEL
  20. RAY (A HISTÓRIA DE RAY CHARLES)
  21. PATRICE LUMMUMBA (SEM TRADUÇÃO PARA O PORTUGUÊS)
  22. FAÇA A COISA CERTA – SPIKE LEE
  23. FEBRE NA SELVA – SPIKE LEE
  24. DO QUE AS MULHERES GOSTAM
  25. JULIO CÉSAR
  26. CALÍGULA
  27. ALEIJADINHO
  28. CARANDIRU
  29. SHAFT (SAMUEL JACKSON)
  30. FILADÉLFIA
  31. CIDADE DE DEUS
  32. OS SETE PECADOS CAPITAIS
  33. OLGA
  34. DOMÉSTICAS
  35. ALÍ, O ETERNO
  36. O POÇO E O PÊNDULO (SOBRE A HISTÓRIA DA INQUISIÇÃO)
  37. LUTERO (TAMBÉM SOBRE A HISTÓRIA DA INQUISIÇÃO)
  38. CONDE DE MONTE CRISTO
  39. HUNRRYCANE, O FURACÃO (DENZEL WASHINGTON)
  40. HOTEL RUANDA
  41. FOREST GUMP, O CONTADOR DE HISTÓRIAS
  42. PEAL HABOR (HISTÓRIA DO BOBARDEIO JAPONÊS À BASE AMERICANA)
  43. NA ROTA DOS ORIXÁS
  44. QUILOMBOS DA BAHIA (ANTÔNIO OLAVO)
  45. A LISTA DE SCHINDLER
  46. O APRENDIZ
  47. COACH CARTER (SAMUEL JACKSON)
  48. OSAMA (SOBRE O REGIME TALIBÃ NO AFEGANISTÃO)
  49. TIROS EM COLUMBINE (MICHAEL MOORE)
  50. FIRERIGHT (MICHAEL MOORE)
  51. PELÉ, O ETERNO
  52. UM ATO DE CORAGEM (DENZEL WASHINGTON)
  53. PAIXÃO DE CRISTO (MEL GIBSON)
  54. TODOS ABORDO
  55. GLADIADOR
  56. UMA MENTE BRILHANTE
  57. AUGUSTUS
  58. DEUS É BRASILEIRO (COM ANTÔNIO FAGUNDES)
  59. VOLTANDO A VIVER (DENZEL WASHINGTON)
  60. HOMENS DE HONRA
  61. AMISTAD
  62. A QUEDA (AS ÚLTIMAS HORAS DE HITLER)
  63. INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.
  64. CHAMAS DA VINGANÇA (DENZEL WASHINGTON)
  65. SARAJEVO (A HISTÓRIA DA GUERRA DA BÓSNIA)
  66. O PIANISTA
  67. GLAUBER O FILME, LABIRINTO DO BRASIL
  68. A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO
  69. AS INVASÕES BÁRBARAS
  70. AS CRUZADAS
  71. BLUMAS DE AVALON
  72. JOANA D’ARC
  73. REDENÇÃO
  74. A PROCURA DA FELICIDADE
  75. FALA TU
  76. ELAS ME ODEIAM , MAS ME QUEREM. (SPIKE LEE).
  77. NASCIDOS EM BORDÉIS.
  78. NAUREMBERG
  79. CRASH, NO LIMITE.
  80. MAR ADENTRO.
  81. BAGDÁ CAFÉ
  82. 8 MILES
  83. EM MINHA TERRA
  84. LONDON.
  85. CÓDIGO DAS RUAS (SPIKE LEE)
  86. O JARDINEIRO FIEL
  87. A FAMÍLIA DA NOIVA
  88. O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN.
  89. PLANO PERFEITO (SPIKE LEE).
  90. BUENA VISTA SOCIAL CLUB
  91. XÁLA (SEMBENE OUSMANE)
  92. CEDDO (SEMBENE OUSMANE)
  93. CAMP THYAROY (SEMBENE OUSMANE)
  94. EMITAI (SEMBENE OUSMANE)
  95. FILHAS DO VENTO
  96. TIROS EM RUANDA
  97. AOS OLHOS DE DEUS
  98. ESTRADA PARA GLÓRIA.
  99. DIAMANTE DE SANGUE
  100. O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Bikodisse Entrevista - Márcio Paim



Bikodisse: O que você pensa sobre a criação da Faculdade Steve Biko (FSB)? Como você se vê nesse processo de construção filosófica da (FSB)?


Penso que a criação da Faculdade Steve Biko é uma iniciativa ímpar. Analisando simbolicamente, a criação de uma Faculdade voltada para o atendimento das demandas das populações afrodescendentes, em um país que é o maior em número de negros fora do continente africano e um estado que também se destaca pela predominância do seu contingente negro, sem dúvidas, possui o impacto (iniciativa) política marcante. A criação da Faculdade Biko, somadas ao já consolidado Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (CEAO/UFBA), seria a consolidação de mais um espaço público – dentre os poucos existentes no nosso estado - de difusão de conhecimentos no campo das relações raciais. Penso que a iniciativa de criar uma Faculdade, partindo de uma instituição consolidada como a Steve Biko, forçaria uma centralização dos estudos africanos e da diáspora, ou seja, em uma Faculdade, a História da África e os estudos africanos, seriam o foco central e não uma disciplina “optativa” como acontece em muitas grades curriculares de variadas Faculdades do país. É isso que me refiro à centralização da História da África e dos estudos africanos em um centro de ensino superior. Essa centralização possui uma importância sem precedentes, principalmente, se considerarmos o contexto político das relações raciais no início dos anos 2000. Acredito que uma iniciativa como esta, também é a possibilidade de perceber a maturidade política do movimento social negro. Acredito que essa maturidade política, hoje, ao propor a criação da faculdade, perpassa os alunos que fizeram parte dessa instituição desde sua fundação. É dessa forma que vejo minha inserção nesse processo de construção filosófica da Biko. Como ex-aluno da Biko estou filosoficamente maduro, já que me perguntou em termos filosóficos.


Bikodisse: Nos próximos meses você irá concluir o mestrado no Pós – UFBA (Pós-Afro). Qual sua linha de pesquisa e de que forma pretende dar continuidade aos estudos que desenvolve?




Exatamente. Embora o Programa do qual faço parte seja um Programa Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos, estou mais próximo dos estudos africanos do que da questão étnica, mesmo reconhecendo que é indissociável dos estudos africanos. O foco da minha pesquisa inicial foi à cobertura do Conflito de Darfur pela Folha de São Paulo (1989-2001). Devido alguns problemas metodológicos, após o exame de qualificação, tive que redimensionar toda minha pesquisa e incluir outras temáticas, a exemplo dos editoriais. Agora tenho de esquadrinhá-la para vê qual será o resultado final. Enquanto isso, o trabalho continua!!! Pretendo fazer um doutorado em alguma área que me permita analisar a imagem da África construída no Brasil. Pretendo continuar pesquisando jornais, pois a mídia impressa, de maneira geral, tem uma importância ímpar no que se difunde sobre a África no Brasil. Imagine só, quem vai me convencer de que um jornal como a Folha de São Paulo que, segundo a Associação Nacional de Jornais (ANJ), é o maior em circulação do país, não exerce influência na construção da imagem da África no Brasil? Esse é o jornal mais complexo, por formar a opinião daqueles que monopolizam os recursos do país. A Folha não é jornal “povão”. São as pessoas as quais a Folha forma opinião (a elite) que se apresentam contra as mudanças, por exemplo, do sistema de cotas. Por isso pretendo dar continuidade a esses estudos, - uma vez que – acho estratégico entender como agem as elites do nosso país. Nos editoriais e notícias da pesquisa, parte considerável



das referências feitas ao continente, na Folha é sob a interpretação afropessimista e usando termos como: selvageria, tribo, carnificina, guerra civil, genocídio, dentre tantos outros. Encontrei um editorial da Folha dos anos 30 que exigia a expulsão dos negros da cidade de volta para a roça. Em outro editorial dos anos 90, a Folha condenou o líder negro Nelson Mandela, na ocasião de uma visita ao pais, por declarar que o Brasil era uma democracia a ser seguida e na opinião dos editores da Folha, Mandela jamais poderia ter falado de democracia racial, já que esse comandava um país como a África do Sul. Essa alternância do posicionamento político dos editores da Folha sobre a África que me interessa, seja na Folha, ou na mídia impressa como um todo.



Bikodisse: Você foi estudante de dois projetos da Biko: DHAR e Pré – Vestibular. Conte-nos um pouco sobre essas duas experiências.


Cheguei a Biko em 2000. No momento em que fui aprovado as coisas começaram a se encaixar. Tinha tido alguns problemas no período anterior, então, naquele momento a Steve Biko, meio que estava sendo uma forma de recomeço. Sobre a questão da conscientização racial, a Biko não tinha sido, naquele momento, o lugar do meu primeiro contato com a questão racial, até porque, em casa, já acompanhava de forma desinteressada a experiência militante de minha irmã mais velha (Márcia Paim). Meu pai, Sr Venâncio, tinha um bar em cima da minha casa, vendia mocotó, sarapatel, arraia, etc. Muitos integrantes do Movimento Negro, vários dos quais, só posteriormente vim compreender a importância que possuíam na organização do próprio movimento, frequentavam lá. Acompanhava toda movimentação do sobe e desce de reuniões, até porque, muitas vezes eu que abria o portão, pois até que o restante do pessoal chegasse, minha irmã se arrumasse coisa e tal, abria o portão para que os que chegavam aguardassem no bar. Muitas reuniões do movimento (de confraternização, inclusive) tiveram lugar no mocotó de Sr. Venâncio. Talvez muitos militantes antigos não se lembrem disso, pois, o tempo é o juiz mais implacável para a memória humana, porém, fui reconhecido por outros mais próximos com quem tenho contato até hoje e acompanharam meu crescimento. É desse período, acho, os primeiros contatos com a questão racial. Nessa época também, é importante lembrar, acompanhava isso só de longe, não estava sabendo do que se passava, via as reuniões e tal, mas completamente voando, “uma merda n’água”, para o lado que o vento soprasse, eu ia! E na verdade estava indo! Nessa época tinha outra cabeça, outras coisas despertavam minha atenção, estava envolvido com outros pensamentos!


Se minha memória não falha, isso que acabei de narrar, acontecia entre o final da década de oitenta a início dos anos 90. Em 2000, depois de um processo atribulado por qual tinha passado, fiz minha inscrição no pré-vestibular da Biko, após muita insistência da irmã que mencionei. Naquele momento, procurava sentido para algumas coisas, por isso era questão de recomeço! As aulas de Cidadania e Consciência Negra (CCN) para mim foram muito importantes, pois precisava me agarrar a algo para reorientar minha vida. Foi aí que passei a compreender do que se tratava a questão racial. Foi aí que compreendi o sentido das reuniões que aconteciam no mocotó de Sr. Venâncio. Foi naquele momento que disse: isso sou eu! Desde então, não consegui mais me separar da história da África.


Bikodisse: As aulas de CCN contribuíram para a sua formação política e cidadã. De que forma?


Tinha uma ideia muito dispersa dessa coisa de ser negro, racismo, preconceito, história da África. Isso em minha cabeça era muito solto! Foi nas aulas de CCN na Biko – embora morasse com uma militante do Movimento Negro, minha irmã - que comecei a amarrar e fazer a relação entre todas essas ideias, logo, é impossível não reconhecer a contribuição que as aulas de CCN e a Steve Biko deram a formação política que possuo hoje.

Foi a partir daí que comecei a ter acesso às referências africanas e da diáspora, Malcolm-X, N’kruma, Garvey, Luther King, Steve Biko, Mandela, Ahmed Sekou Turê, Agostinho Neto e outros. Decidi que enquanto tivesse ar nos pulmões, conheceria o que fosse possível e o que estivesse ao meu alcance sobre a história da África. Foi nesse momento que a história da África passou a ser indissociável de mim. Fiz o pré-vestibular e no Final do ano 2000, fui aprovado no curso de história da Universidade Católica do Salvador (UCSAL), onde iniciei no ano seguinte. Em 2003, retornei a Biko como professor do curso pré-vestibular intensivo, lecionando história do Brasil. Aqui, mais uma vez, a Biko teve um papel importante. Antes de 2003, nunca tinha tido nenhuma experiência de falar em público, tarefa comum para quem se dedica ao ensino da história. A minha primeira experiência (2002) foi para um grupo de alunos e ex-alunos da Steve Biko, o Grupo GERAR. Foi a primeira vez que falei em público. Nervosismo à flor da pele! O pessoal me deu o maior apoio! Aquele grupo foi minha primeira sala de aula! Talvez eles não tenham dimensão do quanto àquela experiência teve impacto na minha vida. Ali comecei a quebrar o tabu! Depois disso, tive uma professora (negra) na Universidade que lecionava as disciplinas história Medieval I e II. Lembro que fiz parte de uma equipe que tinha de apresentar um livro intitulado: O diabo no imaginário cristão. Este livro falava da personificação do diabo no ocidente.


Lembro que durante a avaliação da equipe, após a apresentação do trabalho, ela falou para uma sala de 60 pessoas aproximadamente, que o único componente da equipe que não tinha sido capaz de passar o conteúdo do livro tinha sido eu! Detalhe: o único negro da equipe era eu! Você tem idéia do impacto que isso causou em mim? Ouvir de uma professora negra - diga-se de passagem, uma das poucas na Universidade a ocupar a cadeira de história medieval - que você, o único negro da equipe, NÃO FOI CAPAZ de apresentar o conteúdo dado, ou seja, a elite foi melhor do que a escória! Aquilo mexeu comigo de um jeito, que no semestre seguinte, isto é, na disciplina de história Medieval II, apresentei outro trabalho em que a mesma professora retirou em público todas as palavras que tinha dito no semestre anterior em Medieval I. A raiva que tinha dela no momento da apresentação foi tão grande que esqueci da turma e só conseguia ouvir a voz dela dizendo: VOCÊ NÃO FOI CAPAZ! No final, apresentei o melhor trabalho e superei o público. A partir daí, nunca mais tive problemas em falar em público. Detalhe: depois a professora me chamou no canto e me disse o seguinte: Eu sempre soube que você podia dar mais. Ela me desarmou completamente! Eu estava chateado com ela, pois, quando se diz que uma pessoa não FOI CAPAZ, como ela havia dito, não causava espanto a minha atitude. Percebi depois, que ela procurou me atingir de uma forma que eu pudesse explorar o máximo do meu potencial! Sou muito grato à professora por ter me provocado daquele jeito. Talvez se isso não tivesse acontecido, hoje acho que ainda teria dificuldades de falar em público. O grupo de estudos na Biko e a experiência em sala na universidade me deram tranquilidade suficiente para que eu pudesse lecionar história do Brasil no curso intensivo pré-vestibular em 2003. Foi uma experiência impar, gratificante e inesquecível. Lembro também que na época do pré-vestibular nos Galés, o curso era em frente ao hospital do exército. Eram duas salas cedidas pela escola e de vez em quando o “pau quebrava” por que tinha que juntar as turmas que eram grandes e as salas pouco ventiladas. Então era o maior “furduncio”, mas no final, todos se ajeitavam e ninguém ficava sem aula. Foi um período muito bom, muitas das amizades que guardo até hoje foram feitas ali, ou a partir dali a exemplo de Rosana, Kênia, Michel e Alan Jones, Luiz Henrique Anderson (Dão), Andréia (Itinga), Indira, Marilene, Leonardo (Léo), Vânia (professora de dança), Israel Vibration, Kátia (katinha a organizadora do curso), e pessoas admiráveis. Às vezes penso que aquela foi uma das melhores turmas que a Biko teve, pois, discordava-se de tudo e ao mesmo tempo concordava-se com tudo. Não tenho notícias de nenhuma inimizade ou mágoa daquela turma. Por outro lado, tínhamos uma excelente equipe de professores. Todos foram muito atenciosos comigo, especialmente o professor Lourival, que inúmeras vezes ficou comigo tirando dúvidas até quase 23 horas quando o curso terminava entre 21:30 e 22:00 hrs. Foi a pessoa com quem aprendi orações subordinadas, assunto de português que tinha sido um dos mais difíceis para mim. Nunca tive oportunidade de agradecer a essas pessoas, e faço isso aqui nessas linhas, obrigado a todos!


Bikodisse: Quais os principais fatores que contribuíram na escolha pelo curso de historia?


Acho que no momento em que percebi a dimensão da herança histórica, cronológica e cultural da qual faço parte, decidi fazer história. Vi neste curso a possibilidade do autoconhecimento, pois, aprofundar os conhecimentos sobre a história da África, é perceber a si mesmo, como o produto contemporâneo de um processo histórico iniciado a sete milhões de anos, quando o continente africano passou a ser o cenário do aparecimento da nossa espécie. O impacto dessas descobertas, não dá pra ter dimensão, quando se trata de construção identitária. Tem uma frase de Malcolm-X que gosto muito, e que talvez expresse implicitamente a importância de ter escolhido o curso de história:


Novas pontes devem ser construídas, porque na mente da maioria do nosso povo, hoje a África é longe demais. Então o único modo de nós levarmos nessa direção, é construindo novas pontes. Nós precisamos entender a África e precisamos entender nosso povo aqui, para construir uma ponte, um contato, uma linha de comunicação entre os dois. E quando essas linhas forem estabelecidas, e nossos irmãos africanos puderem esticar as mãos e nos alcançar e quando nós pudermos alcançá-los, não haverá nada que esse homem de olho azul possa nos fazer, com sucesso, desse dia em diante.” Penso que a história tem um papel fundamental na construção das pontes que Malcolm-X se referia, pois, a história edifica consciências. Acho que esse foi outro motivo que me levou a escolher esse curso, descobrir a importância que a história exerce na construção da consciência dos indivíduos.



Bikodisse: Enfrentou alguma dificuldade para cursar historia na Universidade Católica?


A forma como coloca a pergunta deixa espaço aberto para pensar que haja algum tipo de facilidade para as populações de cor cursarem o ensino superior no Brasil, independente de ser a UCSAL, na Bahia, no Maranhão ou em qualquer outro lugar. Penso que as dificuldades tornam comum as experiências negras. É difícil – e com isso não quero dizer que nunca tenha existido – encontrar afrodescendentes que puderam ter acesso ao ensino superior sem ter encontrado qualquer tipo de dificuldade. Acho que alguns encontram mais, outros menos, porém todos têm suas dificuldades. Eu, particularmente, dei a sorte de ser contemplado – no último ano da vigência do programa de bolsas da Universidade o CREDUCSAL em 2001 – com uma bolsa do 85% do valor da mensalidade. Por outro lado, tenho consciência que outros não tiveram e não têm essa sorte. Além disso existiam outras dificuldades que se apresentavam para vários colegas meus e que pra mim eram mais suaves, eram as despesas do transporte, pois sempre morei perto da universidade. As xerox não devem ser esquecidas, concorda! Essas adversidades, quando tomadas em conjunto, tornam-se um sério obstáculo a permanência dos mesmos. A evasão desses estudantes é o problema que temos acompanhado ao longo dos anos! No que diz respeito ao fato de ter enfrentado dificuldades no curso, como colocou a frase de, Malcolm-X, ilustra de maneira contundente a nossa situação em relação a essa questão, logo: “(...). Parem de falar do Sul. A partir do Sul da fronteira canadense, vocês estão no sul”. Em outras palavras, e baseado na nossa realidade, seria uma forma de dizer: estamos todos no mesmo barco e enfrentamos as mesmas dificuldades. Portanto as dificuldades nos unem mais do que nos separam.


Bikodisse: Como foi pra você ministrar aulas de historia no curso Pré – Vestibular na Steve Biko?



Depois de ter quebrado o tabu de falar em público, foi muito interessante, uma experiência ímpar. Acho que essa coisa de mostrar as pessoas o papel que a história ocupa na formação política dos indivíduos é importantíssima. Com as aulas na Biko pude perceber isso de perto.



Bikodisse: Qual sua opinião sobre a Lei 10.639/03 e que tipo de avaliação pode fazer sobre sua implementação.


É preciso colocar alguns pontos nessa questão. Tem-se feito uma discussão muito distorcida sobre a implementação dos Estudos Africanos no Brasil. Ao contrário do que muitos pensam a lei 10.639/03, não torna os cursos de história da África inéditos.

Os cursos de História da África já existiam em algumas universidades do país desde os anos 70 do século passado. É preciso destacar que estes cursos surgem marginalizados devido ao seu campo representar o interesse de uma minoria de pesquisadores. Além disso, se considerarmos o contexto político racial do país nesse período, há de convir a impossibilidade da História da África ter visibilidade como estamos atualmente presenciando. A lei 10.639/03 insere um novo ânimo aos estudos africanos no Brasil, só que dessa vez, isso foi feito após a comunidade internacional reconhecer, na conferência de Durban, que a temática do racismo não poderia mais ser tratada como assunto transversal, e sim central. Nesse sentido a implementação da lei abriu uma porta que não pode mais ser fechada, pois a mentalidade das pessoas em relação a esse tema, embora seja bastante conservadora, não é a mesma dos anos 70. Será muito difícil daqui pra frente qualquer governo – municipal, estadual, federal – ser contemplado com uma plataforma em que a temática racial não esteja presente.

Esse é um dos aspectos positivos da lei. Por outro lado, o fato de nunca ter se dedicado ao continente africano nos currículos escolares gerou uma desinformação tão grande, agora, no momento de se estabelecer um ponto de partida não temos! Partiremos de onde, se nunca tivemos informações coerentes sobre a África no Brasil? Quais serão as referências que utilizaremos para as leituras, se nunca conhecemos os autores africanos? Esses são alguns dos pontos negativos da lei. Por outro lado temos de nos preocupar em saber que são os responsáveis por difundir e formar os conhecimentos da África no Brasil, isso é muito importante! Há muita confusão nesse sentido. Uma coisa é você discutir a história do negro no Brasil, outra, é discutir a história da África, embora ambas estejam interligadas. Tem muitas pessoas que se acham especialistas em história da África, por que falam da história do negro no Brasil e fazem referência as regiões na África de onde vieram os escravizados – Gana, Angola, Nigéria -, essas pessoas se consideram especialistas em África. Tive um colega que me deixou bestificado ao relatar sua participação em uma especialização em história da África. Segundo ele, no curso se ensinavam que Robert Mugabe (atual presidente de Zimbábue) era o presidente de Angola e que, nesse mesmo país, falava-se o francês, imagine! Esse é o perigo da existência de tantos “especialistas” em história da África. Falar das regiões de onde vieram os negros que formaram a mão de obra escrava é completamente diferente, por exemplo, de se verificar os impactos do califado de Sokoto nas relações sociais da Nigéria, percebe? Outro exemplo, averiguar o espaço ocupado pela seita murida durante a expansão francesa no Senegal. Tem outra questão, a história da África, termina ficando restrita à área das ciências humanas – história, antropologia, sociologia, etnologia. Não se fala da História da África nas áreas da genética, biologia molecular, antropobiologia, ou seja, na área das ciências biomédicas. Este campo de estudos é considerado o que é de mais desenvolvido em termos de metodologia de pesquisa. Explicando melhor, a história da África está no centro das pesquisas paleontológicas. A paleontologia, suplementada pela biologia molecular e antropobiologia, tem contribuído significativamente para organização cronológica e um melhor entendimento sobre a evolução humana no continente africano. Sabemos que a arqueologia que é a ciência que se preocupa em achar os fósseis hominídeos tem grandes dificuldades em achar esses fósseis, já que, não são todos os dias que os investigadores encontram restos da humanidade moderna. A partir da recuperação de fragmentos dotados de DNA, está sendo possível confrontar esses dados com datações aproximadas dos antigos fósseis encontrados e produzir um quadro evolutivo coerente. Imagine se fôssemos esperar a arqueologia revelar esses fósseis, quantos anos levariam para possuirmos uma noção do que foi a humanidade? Aqui entre a biologia molecular! Esta auxilia a partir dos indícios de DNA encontrados uma datação praticamente irrefutável. Por esse motivo a história da África tem de ser introduzida nos campos mais avançados. Para as gerações depois da minha, não os incentivo a fazer história, geografia, antropologia, etnologia, sociologia, pois, penso que já tem pessoas muito competentes nessas áreas. Devemos incentivá-los a fazer biologia molecular, antropobiologia, engenharia genética, nanotecnologia, ou seja, nos campos mais avançados da formação do conhecimento. Suponhamos que hoje, surja uma hipótese fundamentada na biologia molecular de que a Ásia foi o berço da humanidade e não a África. Quem seriam os pesquisadores afrodescendentes no campo de estudo das ciências biomédicas preparados para refutá-las? Acho a lei 10.639/03 positiva e produtiva, por abrir caminho para uma profunda mudança epistemológica dos estudos da África no Brasil.



Bikodisse: O estado do Rio de Janeiro pretende adotar reserva de vagas para negros em concursos públicos. Qual sua opinião sobre essa medida?

Se essa reserva for adotada, terá um impacto importantíssimo, pois, significará a extensão da política de cotas do âmbito da educação para o funcionalismo público. Nesse sentido, as cotas deixam de ser pontuais para ser uma política macro. Essas ações, se implementadas, seriam indícios fortíssimos do início de mudanças no campo das relações raciais brasileiras.



Bikodisse: Você pode deixar algumas dicas de livros, site e vídeos para as pessoas que querem iniciar um estudo sobre a “História da África”?

Acho que todos aqueles que desejam iniciar os estudos na história da África devem em primeiro lugar, conhecer os pensadores africanos e da diáspora. Quem foram essas pessoas, onde nasceram quais os seus escritos mais importantes, qual sua principal contribuição na luta contra o racismo. É importante, nesse sentido, destacar o principal obstáculo enfrentado pela população afrodescendente em Salvador para conhecer os referenciais da África e da diáspora, a língua! Parte do material que fornece um conhecimento coerente dessas pessoas, está ou em inglês ou francês. Esses idiomas quando considerados no conjunto de uma população em mais de 100 milhões de pessoas vivem na chamada “linha da pobreza”, torna-se um problema agravante. Nesse sentido, penso, que para conhecer essas referências as pessoas devem procurar um livro chamado almas da gente negra de Edward Du. Bois. Neste livro acompanharemos a percepção racial nos Estados Unidos daquele que foi um dos maiores pensadores do pan-africanismo no século XX. Outro livro que devemos ter em nossa cabeceira é a autobiografia de Malcom-X. Neste livro poderemos acompanhar, a parti da experiência do líder negro americano, o drama que atormenta milhares de famílias negras nas mais diversas partes do globo: a criminalidade. Negra Raízes de Alex Harley, não deve ficar de fora, pois, esse livro nos mostra a importância do conhecimento do passado da África para a formação da nossa identidade. Jacobinos negros de C.L.R.James é outro livro que, todos aqueles que enveredarem para os estudos da África e da diáspora devem conhecer. Este livro é o que há de mais fundamentado sobre a história da revolução de Haiti. Essa revolução todos devem conhecer. Amada e Jazz de Toni Morrison devem ser lidos como os clássicos que relatam o drama da escravidão nos Estados Unidos.

O longo caminho para Liberdade, a autobiografia de Nelson Mandela, é puro conhecimento sobre a história de Mandela, da África do Sul e do apartheid neste país. Quem ler não vai se arrepender! Tem um artigo do professor Carlos Moore em um livro intitulado: educação anti-racista: caminhos abertos pela lei federal 10.639/03 lançado pela secretária de educação continuada (SECAD). Pra aqueles que nunca viram a história da África o conteúdo deste artigo apresenta-se como manual indispensável. O site da casa das África é uma boa fonte de informação para os estudos africanos, ali encontrarão além de bons artigos, muitas referências clássicas. No que diz respeito a vídeos, achei interessante o filme que fala da contribuição negra na criação do Rock, Cadilac Record. Recomendo o Diário de uma louca, para quem gosta de chorar! O filme Sankofa, para quem puder assistir, deixa claro a importância do passado africano no nosso presente.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Bikodisse Entrevista: #1 Dora







Bikodisse: Você estudou na primeira turma do pré-vestibular (1992), época em que se chamava Cooperativa 31 de Julho. Como você ficou sabendo das vagas no pré-vestibular? O que a atraiu para ingressar nesse curso preparatório para o vestibular?

Dora: Inicialmente a oportunidade de voltar aos estudos. Foram dezessete anos parada. E essa relação teve início por intermédio do senhor Gilberto Leal, que sabendo do meu interesse em voltar aos estudos e dos impedimentos financeiros em arcar com os custos de cursinho pré vestibular, me apresentou aos organizadores da seleção, passei por todas as fases de avaliação e fui aprovada.

Bikodisse: Enfrentou alguma (s)dificuldade (s) para cursar o pré-vestibular? Qual (is)?

Dora:Sim, no âmbito pessoal a deficiência de conhecimento, de metas e planejamento, e na questão financeira os recursos para manter o curso pago. Não se tratava de mensalidade, mas de uma taxa de contribuição para confecção de módulos e despesas diversas.

Bikodisse: Sabemos que a disciplina CCN só foi criada dois anos após à criação da Biko. Como eram trabalhadas as questões raciais durante as aulas? Essas aulas contribuíram para sua formação política e consciência negra?

Dora:Fiz parte da primeira turma, logo quando da implantação desse projeto eu já estava fazendo Faculdade, mas acompanhei algumas palestras.

Bikodisse: Como foi seu resultado nos vestibulares? O que lhe influenciou a escolher o curso de secretariado?

Dora:Bem, sempre quis fazer Direito, mas a minha insegurança, na época, não me deixou escolher esse curso. Por outro viés, optei por secretariado em razão de não haver na empresa uma profissional de nível superior exercendo a função de Secretária. Nesse momento falava-se muito em reengenharia, daí acreditei que seria absorvida pelos setores de Diretoria como Secretária. Porém isso não aconteceu.

Bikodisse: É verdade que você foi a primeira estudante da Biko a concluir a graduação? Enfrentou dificuldades para cursar Secretariado?

Dora:Sim, a primeira estudante formada por intermédio das ações afirmativas da Cooperativa Steve Biko. Muito Orgulho! Quanto às dificuldades, foram superadas, pois aprendi na Biko, a me defender, a planejar, a querer e perseverar. Depois ganhei uma Bolsa de 50%(cinqüenta por cento) do valor da mensalidade, através de um Convênio entre a Universidade Católica e a Bahiatursa, empresa em que trabalho. As dificuldades financeiras continuaram, e pagar a mensalidade foi mais uma luta a ser vencida. Mas já sabia que iria ser assim. A Biko me preparou para isso.

Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esses dezoito anos?


Dora:Tivemos períodos mais próximos, participação mais ativa, inclusive apresentando palestras, contudo, o tempo foi nos separando, mas seu nome, sua marca, seu propósito as ações afirmativas por ela levantadas permanecem em mim e nos meus ideais e são divulgadas em todos os movimentos dos quais participo hoje, como Advogada.

Bikodisse: Você desenvolve ou já desenvolveu algum trabalho voluntário em sua comunidade?

Dora:Comunidade pra mim é todo o ambiente cultural, social, familiar, de trabalho, religioso, enfim, todos os locais em que estamos inseridos, e nesse sentido, desenvolvemos, sim,
voluntariamente o papel de facilitador, de conciliador, de instrutor.

Bikodisse: Após a conclusão do curso de secretariado na Ufba você deu continuidade aos estudos? De que forma? È verdade que você cursou direito?

Dora: Sim, mas faço uma correção, o curso foi realizado na Universidade Católica do Salvador -UCSal. Após a conclusão fui contemplada com um curso de Pós-Graduação em Gestão Organizacional Pública - UNEB, pela empresa em que trabalho. Sou especialista em Gestão Pública com didática em Nível Superior. Posteriormente prestei Vestibular na Faculdade 2 de Julho e conquistei meu sonho!. Um sonho que me fez chorar muitas vezes, pensar em desistir, vez que sua realização consubstanciou em levar minhas filhas pequenas a casa de mãe, pegar depois de
um ou dois dias; deitar e levantar sem saber como; ganhar um prato de sopa de uma vizinha que me esperava a porta quando chegava; E acreditar que conseguiria pagar, conseguiria o Financiamento Estudantil. Consegui no 5º semestre. Conclui Direito em 2007. Conquistei minha OAB. E estou iniciando minha caminhada jurídica, superando dificuldades, rompendo barreiras e preconceitos. Mulher, Negra, e Advogada. Discriminação de Gênero, raça e situação financeira, mas cidadã consciente da sua história, de sua origem, e do poder das ações afirmativas em nossas vidas.

Bikodisse: Em 2012 o Instituto Steve Biko pretende montar uma IES (Instituição de Ensino Superior). Como você se vê nesse processo? De que forma pode contribuir?

Dora:Parabéns Steve Biko! Estou à disposição, tenho um sonho, dar aulas, lecionar, conversar com meus estudantes da forma que aprendi a interagir. “isso Dora, erros por pura falta de atenção”, disse o Professor Jonatas Conceição quando escrevi minha primeira redação em mais ou menos quinze linhas. Após a conclusão do curso participei de um Concurso de artigos, fui consagrada, tenho artigo publicado cujo título é A Teoria do Risco Integral por danos ambientais a luz da Responsabilidade do Estado. Escrevo voluntariamente para Jornais, sempre que me sinto provocada e cujos temas são pertinentes à educação, ética, moral, religiosidade, cidadania, a africanidade, afrodescendência, legislações, direitos das crianças, dos idosos, da minoria, etc..

Bikodisse: Que conselhos você deixa para os jovens negr@s que almejam ingressar numa Universidade?
Dora: Se engajem numa instituição política de resgate da cidadania, nos núcleos de combate a todo tipo de discriminação e preconceito, procurem saber e definir seus ideais. Estabeleçam prazos para sua realização. Cultivem laços de amizades. Descubram suas origens, aceitem desafios, tenham consciência de que a luta não para. Vocês terão que se superar e superar as adversidades que certamente surgirão. Glorifiquem teus Deuses, atribuindo a eles o nome que lhes aprover, seja Jesus, Oxalá, Ala, Jeová, e no momento que chegar a cada pit stop receba homenagens e se glorifiquem por que vocês merecem!