segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Nova parceria prepara Bikud@s para o exame TOEFL iBT


Com o intuito de driblar os diversos obstáculos que estudantes negras e negros enfrentam para ter acesso às instituições internacionais de ensino superior, o Instituto Cultural Steve Biko iniciou uma parceria com o curso preparatório americano TOEFL IELTS EXPERTS (T.I.E, LLC). A aula inaugural foi realizada por meio de vídeo conferência com o diretor do curso, Keino Campbell, nesta última quarta-feira (4).


Segundo Keino Campbell, a questão a ser enfrentada na Bahia é que muitos dos estudantes universitários não têm qualquer acesso ou não podem pagar uma formação adequada para o TOEFL iBT. “Como resultado, eles não competem igualmente com outros brasileiros que têm acesso a esta formação gerando uma situação de desigualdade em termos de avançados estudos universitários”, complementa Campbell.





Aulas on-line serão disponibilizadas para um grupo de Bikudos com diferentes níveis de proficiência na língua inglesa com o objetivo de prepará-los para o exame TOEFL IBT, um dos testes mais cobrados por universidades dos Estados Unidos que analisa os níveis de compreensão oral, leitura, expressão oral e escrita de estudantes estrangeiros.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Governador Rui “Tomo da cuia de esmoler”


Por Jaime Sodré



Motivado pelos efeitos positivos da missiva do escritor Jorge Amado, “Tomo da cuia de esmoler”, peça admirável, que resultou na restauração da sede da Irmandade da Boa Morte, descaradamente me faço plagiar aqui alguns trechos, pois a causa merece como verão.

“Tomo da cuia de esmoler das mãos de Celina –Celina Maria Salla–, a infatigável, a heroica combatente. De cuia em punho, irei em frente, pedinte obstinado: a sede nova da Irmandade deve ficar pronta a 14 de agosto, dia em que a festa terá início, a procissão deste ano de 1995 deverá sair das casas reconstruídas. Para que assim seja recebo a cuia de esmoler, parto em missão.”

O Instituto Cultural Steve Biko constitui-se um espaço sagrado do saber e da oportunidade, promovendo ações afirmativas para a comunidade negra, auxiliando-os para o ingresso principalmente em universidades publicas.

Ativa em seus propósitos de servir, esta Instituição, que tem como meta a inclusão, em 2008 comprometera em seu planejamento estratégico, juntamente com o coletivo de colaboradores, a criação da Faculdade Steve Biko (FSB) que pretende ser um marco na qualidade da educação inclusiva, uma instituição que concilie: “competência técnica, compromisso político e social com o povo negro e todos os grupos excluídos”. 

O Instituto vem desenvolvendo ações preparatórias e estruturais junto ao corpo de colaboradores para o pleno êxito desta iniciativa.

Como passo primordial, a Biko desenvolve a reforma da casa cedida pelo Governo Wagner, que necessitava de escoramento emergencial, limpeza, cadastramento do imóvel, e o projeto executivo da obra, contando com apoio técnico dos arquitetos Heron Cordeiro e Islândia Costa, que realizaram a primeira concepção da nova sede (plano de idéias), alem do apoio da Faculdade de Arquitetura da UFBA, a qual fará o projeto executivo definitivo, alem de contar com o apoio da empresa Junior de engenharia da Escola Politécnica da UFBA. A obra, nos informa o Biko, “tem o apoio financeiro da Fundação Coca-Cola” através de doação.

O que pode parecer um mar de tranqüilidade financeira, revela-se apenas um estágio inicial, se levarmos em conta os diversos aspectos para a conclusão, instalação e o efetivo funcionamento pleno e eficaz desta iniciativa louvável e coletiva. 

Assim no diz o Biko: “os nossos colaboradores nacionais e internacionais perceberam o potencial, a efetividade e o valor heurístico de nossos projetos sociais e educacionais para a construção de inovações metodológicas e epistemológicas”.

Em que pese a grandeza da ideia, este desafio necessita-se de colaboradores, por isso atrevi-me a imitar o Amado Jorge e também “tomo da cuia de esmoler” e dirijo-me ao nosso estimado Governador Rui Costa, estendendo-o esta solicitação colaborativa e respeitoso, atrevo-me, sabendo que por certo encontrarei abrigo, pois conhecemos a solidariedade do Governador, “filho da Liberdade”, bairro da negritude.

Assim como Jorge “Não terei vergonha de solicitar o óbolo, a esmola” até termos juntado a quantia necessária.

Ainda seguindo o ilustre Escritor: “Desavergonhado, pedirei aos que são meus amigos e àqueles que mal conheço. Quem se atreveria a negar à Senhora da Boa Morte? na altura, dizia Jorge”.

E para posteridade e júbilo, assim como pensou Jorge, Adenor Gondim fará a fotografia... dos benfeitores reunidos em frente à casa restaurada.(Sede da Faculdade Steve Biko). “FAÇA SUA AÇÃO AFIRMATIVA SEJA SÓCIO DA BIKO”.


Publicado em Jornal A Tarde
12.01.2015

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

BIKODISSE ESPECIAL


Os mais próximos o chamam de Steve, o primeiro nome do soteropolitano Steve Biko Menezes Hora Alves Ribeiro. O estudante de Biotecnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aos 24 anos, está a frente de projetos considerados os mais inovadores do país. Além do nome do ativista sul-africano, Steve nos conta que traço da sua personalidade o aproxima ainda mais do líder inspirador do nosso Instituto. Num bate-papo descontraído, ele fala com simplicidade sobre sua trajetória de sucesso sendo jovem, negro e empreendedor.


Não poderíamos iniciar essa entrevista de outra forma: A que se deve a escolha do seu nome e qual significado ele representa para você? 

Meu pai sempre gostou da história dos movimentos sociais, tinha lido a biografia de Steve Biko e assistido o filme “Um Grito de Liberdade”. Ele queria ter um filho e um nome representativo para ele. Pela história de luta e resistência de Steve Biko achou o nome adequado para o primeiro filho homem. Para mim é um nome muito forte, representa muito e sem me conhecer as pessoas já esperam uma pessoa de personalidade grandiosa. Eu gosto não só pela força que o nome traz, mas pela história que está atrelada a ele.



Então você conhece a história de Stephen Bantu Biko. É possível estabelecer semelhanças entre a sua personalidade e modo de ver a vida com a liderança sul-africana?

Steve Biko lutava por causas que ele acreditava que seriam fundamentais para a mobilização da população negra na África do Sul. Ser forte e resistir às diversas formas de pressões, lutar pelos ideais que acredita também fazem parte da rotina de um empreendedor, características que se enquadram em minha personalidade.

Antes de se tornar um empreendedor você entrou para o ensino superior. Qual a sua trajetória educacional?

Sempre estudei em colégio particular, fiz alguns cursos separados, que eu chamo de “ligação de pontos”, hoje eu vejo como o teatro foi o curso mais importante que eu fiz antes de entrar na universidade. Fiz por distração, mas quando eu tenho que falar em público, para um grupo de empresários, por exemplo, percebo que o teatro me ajudou bastante, até então eu era tímido. Nunca fui um estudante de destaque, daqueles com excelentes notas na escola, por isso me considero um estudante razoável.
Fiz muitos vestibulares, Geografia na Uneb foi o primeiro que eu passei, entrei num cursinho e passei em Bacharelado Interdisciplinar em Saúde e Química na Uneb, estudei mais um pouco e passei em Biotecnologia e Medicina. Com exceção de Geografia, cheguei a cursar todos os que eu passei, mas Biotecnologia na UFBA foi o que mais se encaixou com o meu perfil e depois que iniciei, muitas coisas aconteceram em minha vida. Estou entusiasmado com o curso de Biotecnologia.

Foi a partir do curso de Biotecnologia que surgiu o interesse na área de inovação tecnológica?
Sim. Meu primeiro projeto foi transformado em empresa no SENAI-CIMATEC, que é voltada para análise de qualidade de sementes. O Brasil é um alto produtor de sementes e precisa de uma análise de qualidade eficiente, a partir daí me tornei empreendedor e fui ser responsável pela empresa no SENAI. No edital do Ministério de Desenvolvimento do Comércio Exterior eu escrevi dois projetos e os dois ficaram entre os 128 projetos mais inovadores do Brasil, um foi sobre o controle de qualidade das sementes e o outro na utilização da nanotecnologia.

O que mudou a partir dessa premiação?

Quando você passa nesse edital você tem a possibilidade de conhecer grandes empresários. Durante um período tive a colaboração de um “tutor” que contribuiu para o que sou hoje. Fiquei um tempo com ele aprendendo como é ser um empresário no Brasil, quais as dificuldades, como lidar, conversar, parte da “Formação de Empreendedores e Executivos de Alto Nível”. Depois desse passo veio a competição nacional de inovação, onde ganhamos o primeiro, o segundo e o quarto lugar, sendo o primeiro lugar a criação de uma chupeta inteligente, que ao colocar na boca da criança ela capta os sinais vitais e calcula o fluxo da saliva e os resultados são enviados ao smartphone da mãe.


Quais as dificuldades que um empreendedor negro enfrenta e quais as suas estratégias para superar essas dificuldades?

No mundo empresarial o perfil do empresário que a maioria tem é de uma pessoa branca. Na troca de e-mails, as pessoas não te veem, mas quando temos uma reunião percebo o quanto é notório o espanto de alguns empresários no contato  pessoal. Perguntam “É  você?”


Mas você acredita que é importante os jovens negros ingressarem na universidade, já pensou em contribuir?
Acho que carrego uma representatividade neste sentido, a maioria dos empresários não são negros. É interessante investir, posso ser um voluntário do Instituto Steve Biko e o meu papel seria passar o meu conhecimento para jovens que sonham em fazer o novo, em inovar. 


Que mensagem você deixa para negros e negras que pretendem ingressar em cursos de tecnologia?


Trabalhar com inovação e tecnologia é fantástico! Somos preparados para não modificar muito o que está ai, seguindo os caminhos que já foram trilhados e não modificar muito, então quando você descobre que você é capaz de modificar e ajudar as pessoas é a grande transformação, não só na ciência, mas na sociedade. Não se prenda ao que já foi feito, tem que perseverar, ser esperançoso e acreditar naquilo que você almeja. Siga sempre o que acredita.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Para garantir a continuidade das conquistas sociais e avançar no enfretamento ao racismo e na promoção da igualdade racial, o Movimento Biko apoia Dilma Rousseff Presidenta




O Movimento Biko, grupo que congrega professores, alunos, ex-alunos e colaboradores do Instituto Cultural Steve Biko vem por meio desse manifesto apoiar e recomendar o voto para a candidata Dilma Rousseff neste segundo turno. O apoio à candidata Dilma é coerente com o compromisso desse grupo na busca de consolidar e ampliar as conquistas em prol da equidade racial no Brasil.

O atual cenário político demonstra sinais de ameaças aos avanços da sociedade brasileira, principalmente para a comunidade negra. Disfarçados em slogans de mudança, a elite conservadora apresenta concepções e projetos danosos a nossa comunidade, a exemplo de: endurecimento do sistema penal e redução da maioridade penal; pena de morte, intolerância religiosa e de orientação sexual. Reafirmamos que a juventude não é problema e sim uma solução. A concepção de estado mínimo, reduzindo inclusive o número de ministérios da área social, não contribui com a nossa luta por afirmação de direitos.

Neste sentido, entre os dois projetos deste segundo turno, alinhamo-nos com o projeto liderado, agora, pela presidenta Dilma Rousseff que possibilitou junto com os movimentos sociais conquistas tais como: o estatuto da igualdade racial; as cotas no ensino superior, as cotas no serviço público, a ampliação das universidades públicas, o aumento dos cursos técnicos, avanço na política para as mulheres, redução da pobreza, distribuição de renda e políticas habitacionais. O governo Dilma tem criado e mantido espaços e canais de interlocução com os diversos movimentos sociais e estabelecido na prática governamental a cultura de participação por meio de conselhos e conferências.

As nossas conquistas são frutos de nossa luta e organização, não pertencem a nenhum partido político, mas foram o PSDB e o DEM que entraram no STF contra a constitucionalidade das cotas e as demarcações das terras quilombolas.

Temos a plena compreensão de que ainda há muitas demandas não atendidas pelo Estado brasileiro. Ensina-nos o grande líder Steve Biko “a revolução não é um evento e sim um processo”.

Assim, tornamos público o nosso apoio a Presidenta Dilma neste segundo turno para avançar no enfrentamento ao racismo e no campo da promoção da igualdade racial e de gênero.



MOVIMENTO BIKO!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Jovens do Instituto Steve Biko conhecem a Câmara




Projeto “Culturas Populares Digitais”, do Instituto Cultural Steve Biko


Na tarde de quinta-feira (9), um grupo de 15 estudantes com idades entre 13 e 17 anos, do projeto “Culturas Populares Digitais”, do Instituto Cultural Steve Biko, fizeram uma visita ao Plenário e Memorial da Câmara Municipal de Salvador. Durante o passeio, os estudantes puderam além de conhecer a estrutura física, conversar com o vereador Sílvio Humberto (PSB) – um dos fundadores da instituição - e fazer questionamentos sobre a Câmara e como funciona o relacionamento entre os vereadores e a prefeitura.
De acordo com o coordenador do projeto, Alex Alberto, o principal objetivo de conhecer o funcionamento da Câmara é que os alunos possam ser melhores porta-vozes de sua comunidade. “Eles irão desenvolver conteúdos nas redes sociais que cobrem dos responsáveis melhorias para o local onde moram”, declara.
Robson Gomes, de 13 anos, aluno do projeto, gostou de ver os quadros do Memorial, em especial o da Catharina Paraguaçu, e disse que durante a conversa com o vereador não queria fazer perguntas, mas sim “exigir mais merenda escolar, mais professores e profissionais de saúde”.





Fonte: Câmara Municipal de Salvador

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Sarau Inquebrantáveis


Ao longo desses anos, muitos estudantes passaram pela inst.Cultural Steve Biko e deixaram suas contribuições: artística, cultural ou militante. Sendo assim, sentimos a necessidade de fazer um encontro onde possamos reunir os artistas que fizeram e fazem parte da “Biko” e juntos, celebrarmos as comemorações do mês de novembro (Consciência Negra), dos 21 anos do Instituto Cultural Steve Biko e os 38 anos da Proclamação da Independência da Angola, comemorado no dia 11 de novembro.
Pois bem, esse dia chegou!
E é com imenso prazer que nós, estudantes do Inst.Cultural Steve Biko, convidamos TOD@S a participarem do nosso 1º SARAU DOS INQUEBRANTÁVEIS, evento este, que acontecerá às 13:00hs no espaço Casa de Angola, localizado em frente ao Corpo de Bombeiros, no bairro da Barroquinha. 

Será uma tarde regado a muita poesia, apresentações cênicas e muito mais!!!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Oguntec é citado como programa referência em tecnologia na Câmara de Salvador


Durante sessão ordinária na Câmara Municipal de Salvador, realizada nesta quarta-feira (16), o Programa Oguntec do Instituto Steve Biko foi destacado pelo vereador Sílvio Humberto (PSB) como referência no fomento à ciência e tecnologia. “Nossos jovens devem entender que não basta serem usuários das tecnologias. Elas e eles podem ser produtores de ciência. Por isso nós louvamos a iniciativa, do Instituto Cultural Steve Biko, que por meio do seu projeto Oguntec já ganhou prêmios e se tornou uma referência internacional”, destacou o socialista.

O programa OGUNTEC consiste em um conjunto de ações destinados ao fomento à Ciência e Tecnologia, que tem como público alvo os estudantes afrodescendentes oriundos das escolas públicas estaduais, oportunizando aos mesmos uma educação científica que possibilite sua melhor interação com os avanços científicos e tecnológicos.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Bikodisse Entrevista: Lamartine Silva



1.      Fale-nos um pouco sobre sua atuação política.

Sou Lamartine Silva, 43 anos, membro do curso Kwetu, militante negro da organização de hip hop Favelafro do Maranhão, sempre participei de formações e seminários ligados a questão racial no Brasil, Itália, Bélgica, França e São Tomé e Príncipe, cursei até o ensino médio.

2.     Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?
                                        
Sou fundador do Movimento Hip Hop no estado do Maranhão, a organização que ajudei a fundar foi o Quilombo Urbano, depois saí dessa organização e fundamos a organização Favelafro, onde ajudamos no processo de formação de uma organização nacional de hip hop que se chamava Mhhob (Movimento Hip Hop Organizado Brasileiro). Fui Conselheiro Nacional de Juventude representando o hip hop, em especifico essa organização, e fui também Conselheiro Nacional de Cultura , representando o povo afro




3.      Como é o seu relacionamento com a Biko? O que faz atualmente no ICSB?

Minha relação com a Steve Biko se deu da forma mais harmoniosa possível, respeitando a disciplina colocada pro processo de aprendizado Kwetu, onde todas as palestras e conversas sobre negritude elevou a autoestima e qualificou nossa militância.

4.  Na sua opinião, qual a importância do acesso da população negra ao ensino superior?

Entendo o espaço da universidade como importante na perspectiva de empoderamento, ocupar e enegrecer a academia.



5.  O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES). Como você se vê nesse processo?

Me considero um colaborador nato da Steve Biko, estou disposto a contribuir nesse processo, de alguma forma, e esse deve ser o caminho uma universidade preta.

6.   Qual a importância das aulas do Programa Kwetu na sua formação e atuação enquanto liderança negra? Podemos notar alguma diferença na sua atuação? De que forma?

O curso se torna importante na minha atuação pelo conteúdo rico e diverso que possui, com essa grade curricular minha militância ficou mais qualificada, com uma visão mais estratégica de desafios, que aparecem na vida dos militantes negros do nordeste, graças ao curso a minha militância tem hoje um leque grande no processo de vencer desafios, superar barreiras.

7. Quais os principais desafios que o Movimento Hip Hop enfrenta atualmente no Brasil? Como superar esses desafios?

Movimento hip hop brasileiro, como desafio maior, considero ser um movimento forte politicamente e culturalmente, até por que uma coisa não impede a outra, a superação desses desafios se dar a partir, de entendermos que é necessário existirem produtores negros donos de seus produtos gerados pelo hip hop, assim como o Movimento entender que as organizações políticas de movimentos hip hop devem também priorizar o empoderamento das mesma sem claro esquecer a questão racial.



8.  Como você vê a representatividade da população negra na política e quais estratégias serão necessárias para uma maior representatividade?

O Movimento Negro, tem que entender que devemos enegrecer o parlamento a partir de uma construção coletiva de projetos políticos negros, pois somos a minoria nos espaços legislativo, as leis saem desses espaços, várias conquistas deixam de ter êxito em função de nossa insignificante participação como legislador ou legisladora, não é o único caminho mais devemos sim ocupar esses espaços.

========

Entrevista: Nucom - Núcleo de Comunicaçao do Instituto Steve Biko

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Bikodisse Entrevista: Carina Reis




Bikodisse: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória educacional antes do ingresso no pré-vestibular Steve Biko.

Carina Reis: Estudei desde o primário até a quarta série em uma escola chamada Divino mestre, uma escola da ordem cruz de Malta que beneficiava famílias carentes da comunidade em que eu morava (Barbalho). Foi lá que o racismo me machucou pela primeira vez quando, ao falar que queria ser bailarina, uma professora me olhou e me perguntou “você já viu bailarina preta menina? onde já se viu isso”. Esta mesma professora penteava os cabelos das meninas brancas e o meu e de outras meninas negras ela nunca tocou.
Da quinta série ao segundo ano do ensino médio eu estudei no Colégio Estadual Carneiro Ribeiro Filho, porém por determinação do governo, as escolas a partir de então só teriam formação geral, sendo assim fui transferida para o Colégio Estadual Mário Augusto Teixeira de Freitas, que era um dos únicos colégios que ainda teria formação técnica e foi onde concluí meu curso de técnica em contabilidade.
Lembro-me que quando voltei ao Carneiro Ribeiro para pegar meu histórico para me matricular na universidade, a diretora que era a mesma do tempo em que eu estudava, ao me ver perguntou-me quantos filhos eu tinha e se eu estava voltando para a escola. Essa mesma diretora e a maioria dos professores daquela escola nunca incentivaram e nem acreditaram que os alunos de lá pudessem ingressar em uma universidade e quando eu disse o porquê de estar ali, ela se mostrou bastante surpresa e relutou muito a me parabenizar.


Bikodisse: Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?

Carina Reis: Sim, do grupo de jovens na igreja do Santo Antônio Alem do Carmo.
Lá nós trabalhávamos com o intuito de ajudar de diversas formas pessoas necessitadas de carinho e atenção como, por exemplo: orfanatos e abrigos para idosos.

Bikodisse: Quando e como começou sua história na Biko? Enfrentou alguma dificuldade para cursar as aulas do pré-vestibular? Qual (is)?


Carina Reis: Comecei minha história na Biko um ano antes de
entrar na instituição, em 2000. Vi em uma entrevista sobre o Pré- vestibular e me lembro até hoje, o entrevistado era o Ex-professor Geraldo Belmonte, mas só vi a reportagem no final e não sabia a data de encerramento das inscrições. Por conta disso, só após uma semana procurei a instituição para fazer a minha inscrição, -foi o tempo que levei para conseguir a grana da inscrição - mas chegando lá, infelizmente, o prazo já havia acabado. A partir daí começou a minha peregrinação, fiquei o ano todo ligando para a Biko, querendo saber quando teria nova inscrição, e com medo de perder novamente. No ano de 2001 enfim consegui me inscrever, passei por todo o processo e comecei a fazer o curso pré vestibular, daí em diante participei do curso de DH e antirracismo, do POMPA, fui assistente pedagógica na gestão de Josilene Sales e em 2005 fui professora de CCN, o que me deixou extremamente orgulhosa por ter sido capaz de assumir tamanha responsabilidade, visto que trata-se do diferencial da Biko.
As dificuldades que enfrentei foram muitas, eu não trabalhava na época, não tinha “grana” para nada, ia do Barbalho até à Praça da Sé todos os dias andando e voltava andando. Muitas vezes passava a tarde toda na biblioteca com fome. Lembro que sempre surgia alguém do grupo com um biscoito seco, um nego bom que nos salvava, além disso eu tinha um filho de um ano e quatro meses, que muitas vezes ia comigo para a instituição e eu precisava me virar com "bicos" para alimentá-lo. Foi uma época muito louca da minha vida, mas encontrava na Biko e nos colegas que estavam na mesma situação que eu, às vezes melhores ou piores, a sustentação para continuar seguindo e acreditando que a história da minha família podia ser reescrita através de mim.
Depois de muitas batalhas entrei na Universidade Católica no curso de letras vernáculas e fiquei lá por quatro semestres até que mais uma vez tive de abrir mão do meu sonho, por falta de dinheiro tive de abandonar o curso.


Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esse tempo? O que faz atualmente no ICSB?


Carina Reis: Fiquei cinco anos em atividades na Biko,
porém em 2005.2 tive de me afastar porque arranjei, depois de muita luta, um trabalho com carteira registrada, e como há muito eu não tinha trabalho fixo, precisava aceitar a proposta. Por conta disso e de algumas situações ligadas a minha vida pessoal, acabei me afastando fisicamente um pouco da instituição, mas a minha e cabeça e meus pensamentos estavam sempre voltados para tudo que acontecia por lá.
Em 2009 fui convidada por Silvio Humberto a participar de um processo seletivo para ser educadora do Projeto Conexão Direta com o Futuro, uma parceria da Biko com o Instituto Nextel.
Tive meu currículo aprovado e isso culminou na minha volta para a Biko. Hoje faço parte do Nudep e também sou investidora social.



Bikodisse: Em outras edições da Bikodisse, @s entrevistad@s relataram a importância da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) em suas vidas. Com eram as aulas de CCN na época em que você estudou no Pré-vestibular Steve Biko? Que importância essas aulas tiveram na elevação de sua autoestima e formação política?



Carina Reis: Relatei anteriormente sobre minhas dificuldades para fazer o
curso e quando digo que na Biko encontrei esteio, me refiro principalmente ao CCN. Quando estudei, os professores de CCN eram Lázaro Passos e Carmen Flores, quem os conhece pode avaliar quão ricas e motivadoras foram essas aulas, principalmente politicamente. Eu conhecia pouco de mim, da minha história, e minha autoestima fora arrancada de mim desde muito pequena. Na Biko passei a gostar mais de mim, do meu cabelo e do que cada traço representava, passei também a entender tudo que o racismo fez e faz comigo e com meu povo, da religião do meus ancestrais e de como esta foi deturpada e endemonizada, da representação que me faziam crer por muito tempo de qual era o papel de uma criança, uma jovem e uma senhora negra, e que estas jamais teriam seus espaços garantidos.
O CCN me fez renascer, acreditar em mim, no meu potencial, na minha beleza negra, na minha inteligência, na minha força, me fez acreditar na força e apoio espiritual que tenho, vinda dos Orixás e dos meus ancestrais e com certeza muito do que sou hoje foi graças a tudo que tive na Biko e no CCN.


Bikodisse: Quais os principais motivos para a escolha do seu curso de graduação? O que motivou o seu interesse em ingressar na Universidade?




Carina Reis: Na minha família nenhuma mulher tinha curso superior e meu irmão Miguel Ângelo Reis foi o primeiro da família a ingressar em uma universidade. Sempre o tive como referência de inteligência e sabedoria, gostava de como ele falava e interagia com as palavras e isso me fez inicialmente escolher o curso de letras, que era o curso que ele tinha feito. Cheguei a cursar Letras por quatro semestres, mas, por falta de grana acabei saindo. Há dois anos voltei para a graduação e depois de muito avaliar o que eu realmente queria fazer, optei por fazer uma graduação no curso de Gestão de Pessoas, que está ligado diretamente ao que faço hoje e ao que quero fazer futuramente.





Bikodisse: O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES) em 2012. Como você se vê nesse processo?


Carina Reis: Integrada e atuante, desde o levantar do primeiro bloco até a primeira turma formada e daí em diante. Esta Instituição que é um sonhos meu, e tenho certeza que de muitos que passaram pela Biko, é a certeza do começo de uma nova era.


Bikodisse: Você participou da mobilização em prol da isenção da taxa de inscrição no vestibular da Ufba no mês de agosto de 2001. Como se deu essa mobilização?


Carina Reis: Essa mobilização se deu motivada pela ira de sermos reprovados antes mesmo de fazer a prova, o valor da taxa era muito alto como é até hoje, e não achávamos justo que ficássemos de fora por não ter este dinheiro para pagar, lembro-me que Sueli, George e outros, encabeçaram inicialmente esse movimento em um discurso consciente e convicto do que nos estava sendo negado, e nós, movidos pelos mesmos ideais, imediatamente concordamos em entrar nessa briga pela insenção. A Biko nos ensinou a lutar e assim o fizemos, começamos com poucas pessoas, cartazes em cartolina e gritos que ecoavam as ruas do centro, conseguimos mobilizar em pouco tempo pessoas de outras instituições e fizemos muito barulho, gritamos por reparação. Essa foi para mim uma das experiências mais ricas da minha vida e ter conseguido junto com todos que lá estiveram de fato, desde o início, foi muito marcante. Faria tudo outra vez.


Bikodisse: Quando e como teve início a sua participação no Projeto Conexão Direta com o Futuro (parceria entre os Instituto Steve Biko e Nextel)? O que faz neste projeto atualmente?


Carina Reis: Minha participação teve início através de um processo seletivo como já citei acima. Trabalhei muitos anos como operadora de telemarketing, e o projeto precisava de uma educadora de teleatendimento, isso se deu em março de 2009.

Hoje estou efetivada no Instituto Nextel como educadora de técnicas de atendimento e cultura, e venho aprendendo muito com as formações e as experiências de mulheres maravilhosas como Jucy Silva e Maria Luisa, detentoras de muito conhecimento e sabedoria, além do senso de coletividade que é agregado a mim e aos demais colegas sempre.
Contando também com essa nova experiência que é a de trabalhar com o social aliado a parte empresarial que traz uma outra forma de trabalhar, bastante rica.


Bikodisse: O Estado do Rio de Janeiro pretende adotar reserva de vagas para negros em concursos públicos. Qual sua opinião sobre essa medida?

Carina Reis: Precisamos de reparação em todas as instâncias, precisamos ter de volta tudo que por muito tempo fomos privados, entender que não queremos cotas para a eternidade, e sim, queremos isso por tempo suficiente para que possamos ser reparados por tudo que nos foi negado durante todos esses anos.
Essas ações não deslegitimam nem anulam, de forma alguma, a nossa capacidade intelectual.


Bikodisse: Quando e por que você resolveu se tornar uma Investidora Social ? Essa doação tem alguma relação com as aulas de CCN?


Carina Reis: Desde que estudei na Biko sempre tive essa vontade de estar e ajudar como pudesse. Me tornei investidora social em 2009, e sim, tem muito haver com o CCN. Com o CCN aprendemos que o trabalho deve ser continuado e quem melhor que nós, que fomos beneficiados e que conhecemos a seriedade desse projeto, para colaborar? Sou feliz hoje por poder contribuir com o que entendo ser o mínimo para a Biko.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Bikodisse Entrevista: João Paulo






Bikodisse: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória antes do ingresso no Consorcio da Juventude.

João Paulo: Antes de participar do Consórcio da Juventude minha trajetória foi um processo consecutivo de boas iniciativas promovidas por organizações sociais públicas e privadas que me proporcionaram aprendizados que despertaram em mim uma maturidade e uma consciência de direito, levando-me a aproveitar todas as oportunidades que a vida me deu, especialmente as de acesso ao conhecimento.

Estes aprendizados adquiridos em outras organizações permitiram-me chegar ao Instituto com clareza do que queria. Eu sabia mais ou menos o que precisava fazer para alcançar as minhas humildes metas, que eram concluir o ensino médio e conseguir um emprego de carteira assinada para ajudar em casa, mas naquela época eu tinha uma frágil “identidade racial”.

Ao longo do processo do Consórcio, no qual era aluno do Curso de Mobilizador Social, fui levado pelos educadores, por meio de debates muito acalorados -o que é padrão para atividades formativas da Biko e outras atividades educativas-, a questionar minha identidade racial, que até então era de mestiço, e superar o processo de autossabotagem que o racismo havia incutido em mim, ao longo da minha vida.

A vivência junto a Biko me deixou como legado a autoconfiança e a segurança para alçar novos voos e ter a plena certeza de concretizá-los, pois a Biko através do Consórcio possibilitou-me a proximidade com pessoas como Cosme, Vilma Reis, Valdo Lumunda, Samuel Vida, Valdecir Nascimento, Hamilton Borges, que com os seus exemplos e histórias de vida mostraram-me que era possível chegar onde eles haviam chegado, e fazer como eles; tirar a população negra da condição de exceção para torná-la regra. Foi também graças a essas influências que me transformei num jovem negro compromissado com a superação do machismo, do racismo e da homofobia


Bikodisse: Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?

João Paulo: Tive a oportunidade de fazer parte do CRIA (Centro de Referência Integral para Adolescentes), inicialmente como jovem ator e depois como monitor. Fui Conselheiro do MIAC (Movimento de Intercambio Artístico Cultural Pela Cidadania) pela Fundação Cidade Mãe - Empresa Educativa de Roma, a primeira organização em que fui “atendido”, sendo a mesma uma das mais significativas em minha história, por dar-me condições de transpor o muro visível que circundava minha comunidade e me apresentar o mundo. Sei que para alguns, isso podo parecer besteira, mas informo que ainda existem jovens que sequer saem das fronteiras de sua comunidade e que não têm condições de conhecer a cidade em que vivem.

Aproveito para externar minha preocupação com esta OSP (Organização Social Pública) Fundação Cidade Mãe, que na atual gestão da prefeitura de Salvador, encontra-se com suas unidades socioeducativas sucateadas, o que a meu ver, é um grande prejuízo para as crianças e adolescentes moradores dessas comunidades, especialmente para a comunidade na qual resido que é Itapagipe.

Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esse tempo? O que faz
atualmente no ICSB?

João Paulo: Depois de terminar o Consórcio Social da Juventude, e por ter conseguido um estágio na época na Caixa Econômica Federal e estar no ano final de conclusão do ensino médio, passei a ficar com pouco tempo, assim participava de uma atividade ou outra promovida pelo Instituto.

Em 2007, se não me falha a memória, fui representante do GRUCON-BA (Grupo de União e Consciência Negra) na Subcomissão de Juventude e Reflexão a Violência da CAMMPI (Comissão de Articulação dos Moradores da Península de Itapagipe), a qual realizava um curso de formação política em parceira com ISPAC, tendo como uma das facilitadoras Nádia, que coordenava na época o núcleo de antirracismo e direitos humanos da Biko. Ela então fez um convite a mim e a outro irmão de militância chamado Ismael, para nos incorporamos ao núcleo, foi quando voltei para a Biko.

Dentro do Núcleo de Antirracismo e Direitos humanos, por meio de um projeto de mapeamento das violações de direitos, em especial aqueles referentes aos fatores raciais e de gênero, apoiado na época pelo Fundo Brasil de Direitos, tive a experiência de levar a discussão sobre DH do centro para as comunidades periféricas de Salvador, fazendo um diálogo com estas comunidades, que objetivava, além de informar, empoderar as mesmas sobre como ter acesso ao sistema nacional e internacional de direitos humanos, e como estas comunidades poderiam usar os mesmos para denunciar as violações de direito que estavam sofrendo. Um dos grandes baratos desta experiência é que a BIKO apresenta para a cidade uma nova forma de discutir direitos humanos associado ao antirracismo, tendo os jovens neste processo não mais como beneficiários, mas como sujeitos, executores, sem falsa modéstia, bons executores.

Não muito tempo depois o Instituto Steve Biko, recebeu o convite, por meio da coordenadora do Núcleo de Antirracismo e DH, Nádia, de ficar responsável pelo desenvolvimento da metodologia e execução do processo educativo do PROGREDH, quando mais uma vez a Biko aposta na juventude, colocando na mão da mesma o importante papel de formar 500 jovens oriundos de inúmeras escolas municipais de Salvador, além de fazer com que estes jovens desenvolvessem ações ligadas aos direitos humanos, antirracismo e equidade dentro das escolas.

Estas duas experiências dentro do instituto fortaleceram meus laços com as organizações e firmaram em mim o compromisso de, cada vez mais, contribuir para que essas ações se propaguem.


Bikodisse: Em outras edições da Bikodisse, @s entrevistad@s relataram a importância da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) em suas vidas. Com eram as aulas de CCN na época que você estudou no Consorcio da Juventude? Que importância essas aulas tiveram na elevação de sua autoestima e formação política?

João Paulo: Pergunta muito interessante, primeiro porque permite-me fazer alguns esclarecimentos sobre o CCN dentro do Consórcio.

Dentro do Consórcio não tive a disciplina CCN, mas sim outra chamada Equidade, que tem alguns conteúdos muito parecidos com CCN. No entanto, a matéria equidade vai muito mais além, o que, para mim, foi uma grande sacada das organizações envolvidas na execução das primeira turma do Consórcio em Salvador, por esta ter colocado na pauta da formação de jovens para o primeiro emprego, a necessidade de preparar os mesmos para o respeito às diversidades. Acredito que esta iniciativa poderia contribuir muito para a redução do preconceito e discriminação.

Destaco também neste processo de consórcio o importante papel que a Biko teve, pelo que lembro, enquanto única organização membro do 1º Consorcio ligada ao movimento negro, para incluir na grade da disciplina de Equidade às questões raciais.

Ah, quase ia terminar de responder esta pergunta sem diferenciar as disciplinas de CCN e Equidade. Então, CCN trabalha as questões raciais e de gênero, e Equidade trabalha as questões raciais e de gênero, além de acessibilidade.



Bikodisse: Quais os principais motivos para a escolha do seu curso de graduação? O que motivou o seu interesse em ingressar na Universidade?

João Paulo: Hoje sou estudante do curso de Pedagogia (6º semestre – EAD) o qual sempre admirei, mas mesmo dentro da universidade ainda sinto-me academicamente incompleto, por estar no movimento social e necessitar de algumas ferramentas que o curso de Pedagogia não ofertava. Por isso, em 2009 matriculei-me no curso de Serviço Social para suprir esta necessidade.


Bikodisse: O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES) em 2012. Como você se vê nesse processo?

João Paulo: Vejo-me, assim como outr@s bikud@s, como colaborador deste processo. Hoje temos muito a comemorar, pois já conseguimos o espaço tão almejo para a implantação da IES.


Bikodisse: Como se dá sua contribuição para movimento de economia solidária? Você acredita que a economia solidária sofreu/sofre alguma(s) influência (s) das religiões de matriz africana? De que forma?

João Paulo: A contribuição que venho dando à economia solidária é fazer com que ela não fique sendo pautada entre os mesmo, e que outros movimentos e organizações a tenham como uma das suas estratégias, por ela não ser fim, mas sim meio para viabilizar as conquistas.
Um dos desafios hoje, no papel novo que estou ocupando enquanto coordenador executivo do Coletivo Para Promoção de Práticas Solidárias Casa de Taipa, ONG de assessoria, consultoria e formação fundada por um grupo de jovens ex-bikudos e membros de empreendimentos de Economia Solidária, é fazer com que a comunidade negra consiga não ter só o empreendedorismo, mas também a Ecosol como caminho. Embora não tenha nada contra ao empreendedorismo, percebo que o mesmo só nos coloca no círculo do capitalismo, do individualismo, da exploração, que a meu ver vem minando um número significativo de iniciativas de geração de trabalho e renda da comunidade negra.

Sobre a pergunta de que a Ecosol sofre influência das práticas cooperativas das religiões de matriz africana; sem sombra de dúvidas, e de outras como as irmandades negras que mobilizavam dinheiro para comprar a liberdade de outros escravizados, os quilombos enquanto experiências de autogestão do trabalho em cooperativas, mais para frente temos as experiência dos nossos irmãos negros americanos, com o movimento Black Power que fomentava dentro da comunidade negra, a prática de uma coisa que a economia solidária chamava de consumo consciente, só se comprava em estabelecimentos que fortalecessem a causa da superação do racismo. Esta iniciativa permitiu a circulação do dinheiro dentro da comunidade, fortalecendo com isso a economia local, o que é um dos princípios que a Ecosol prega.

Bikodisse: Fale-nos um pouco sobre a sua participação na elaboração e implementação do Projeto SOS Sustentabilidade.

João Paulo: Para falar sobre minha participação na elaboração e implementação do Projeto SOS Sustentabilidade acredito que é necessário primeiro falar o que é o mesmo. O SOS Sustentabilidade é um projeto de incubação de empreendimentos solidários das comunidades do Tororó em Base Naval e Santana em Ilha de Maré, ligados a cadeia de pesca e do artesanato do bordado de bilro, fruto da cooperação técnica do Coletivo Para Promoção de Práticas Solidárias Casa de Taipa, Espaço Quilombo e o Instituto Steve Biko.

Dentro desta Cooperação técnica ficou a cargo da Casa de Taipa, no processo de elaboração do desenho da metodologia de incubação que seria aplicada no projeto, o desenvolvimento desta metodologia. Agora, no processo de implementação sou Gerente de Incubação da mesma, estando sobre a responsabilidade da Biko a gestão financeira e administrativa do projeto, além das construções estratégias e pedagógicas para fortalecimento e resgate da história das comunidades quilombolas urbanas. Cabe ao Espaço Quilombo a responsabilidade do processo de monitoramento ambiental e assistência aos empreendimentos da cadeia de pesca e mobilização comunitária.

De acordo com o aprendizado acumulado nestes quatro meses de execução da incubadora SOS Sustentabilidade, acredito que ao final do projeto vamos deixar um bom legado de experiências para que outras entidades ligadas ao movimento negro possam tomá-lo como referência nas suas ações de geração de trabalho e renda.

Bikodisse Entrevista: Manuela Barbosa







Bikodisse: Conte-nos um pouco sobre sua trajetória educacional antes do ingresso no pré-vestibular Steve Biko.

Manuela Barbosa: Minha trajetória educacional foi conturbada e impulsionadora ao mesmo

tempo. Iniciei os estudos em uma escola particular de pequeno porte e na mesma cursei todo o ensino fundamental I. Após esse período adentrei ao sexto ano do ensino fundamental II, em uma escola particular de grande porte, mas fui reprovada, pois não possuía os livros solicitados, e por isso apresentava muita dificuldade na compreensão dos assuntos.
Por causa da reprovação, no ano seguinte fui matriculada na Escola Estadual Classe III para repetir o sexto ano, mas adquiri uma doença óssea e por conta dessa comecei a andar de muletas. Por causa da enfermidade e do uso contínuo das muletas, recebia muitos apelidos dos colegas e como não sabia lidar bem com tal situação, pedi a minha família para ficar um tempo sem estudar e eles aceitaram.
Fiquei um ano e meio afastada da escola. Nesse processo de afastamento fiz cirurgia, fisioterapia e me recuperei tanto fisicamente quanto emocionalmente, após isso voltei para a mesma escola muito mais segura então pude concluir o ensino fundamental II.
Já o ensino médio foi mais tranqüilo. Estudei na Escola Estadual Marquês de Maricá do primeiro ao terceiro ano do ensino médio, todos esses três anos foram bastante satisfatórios, pois estudei e comecei a trabalhar informalmente, essa experiência me fez traçar metas e adquirir uma vontade de me desenvolver. Por isso, antes de finalizar o último ano comecei o cursinho no Instituto Steve Biko.

Bikodisse: Antes de ingressar no Instituto Steve Biko você já havia participado de outro grupo ou ONG? Quais? De que forma?

Manuela Barbosa: Antes do Instituto Steve Biko nunca havia participado de nenhum grupo ou ONG.

Bikodisse: Quando e como começou sua história na Biko? Enfrentou alguma dificuldade para cursar as aulas do pré-vestibular? Qual (is)?

Manuela Barbosa: Minha história no Instituto Steve Biko começou em julho de 2004. Nesse ano cursava o terceiro ano do ensino médio e não tinha muito conhecimento do que era um pré-vestibular e uma faculdade, pois vivia o mundo do meu bairro onde a realidade “comum” é finalizar o ensino médio e trabalhar, faculdade era uma realidade muito distante.
Porém, na minha escola havia uma educadora de Língua Portuguesa chamada Lúcia Marçal que sempre apresentava questões sociais problematizando o nosso futuro pós ensino médio. Essas aulas tiveram um valor imenso para mim, sendo que comecei realmente a pensar o que iria fazer quando concluísse o ensino médio.
Por ironia do destino, nesse período conheci Carina Reis que já havia sido estudante Biko e em uma conversa falou-me um pouco do Instituto, explicando-me o que era um pré-vestibular e me incentivando a fazer a seleção do mesmo. A princípio fiquei temerosa, pois o curso era à noite e eu não tinha experiência em sair nesse turno, havia também o pagamento e eu não tinha dinheiro. Sabia que iria enfrentar essas dificuldades e então resolvi pedir ajuda.
Lembro-me de ter conversado com Carina e explicado meus temores e ela me estimulou a conversar com meu tio e assim o fiz. O mesmo permitiu que eu fizesse a seleção e disse que pagaria o curso. Assim, participei da seleção, fui aprovada e comecei minha trajetória de bikuda.
No ano de 2004 não passei no vestibular, mas ganhei verdadeiros amigos e o mais interessante, conheci muitos lugares em salvador. Como não havia sido aprovada em 2004 resolvi fazer uma nova seleção em 2005 e fui aprovada, contudo havia um grande problema, meu tio não ia mais poder pagar o cursinho e como eu não era mais estudante do ensino regular, não possuía mais o cartão de meia passagem, o que dificultava ainda mais a situação.
Então resolvi conversar com Mário que na época era diretor financeiro da Biko, expliquei meu problema e ele fez um acordo comigo, dando um prazo para que eu pagasse o cursinho quando eu começasse a trabalhar. Achei essa credibilidade de muita importância, pois queria muito estar no instituto e foi por isso que comecei a dar banca e assim pude não só pagar as mensalidades, como meu transporte também.
Nesse mesmo ano passei no vestibular para Pedagogia.

Bikodisse: Como foi seu relacionamento com a Biko durante esse tempo? O que faz atualmente no ICSB?


Manuela Barbosa: Meu relacionamento com a Biko sempre foi ótimo. Nesse espaço sempre me senti respeitada e acreditada.
O Instituto Steve Biko durante todo o momento me possibilitou coisas positivas, pois lá fiz amigos-irmãos, adquiri conhecimento sobre minha ancestralidade, e assim fortaleci minha autoestima o que considero de suma importância para qualquer ser humano.
Atualmente faço parte do Núcleo de Tecnologia Educacional (NUTE). No ano de 2006 após entrar na faculdade Olga Mettig fui convidada por Jucy Silva para fazer parte desse núcleo, onde obtive uma experiência profissional enorme ao conviver com profissionais da minha área e por vivenciar o cotidiano de uma instituição educacional. Tal experiência me fortalece até hoje.

Bikodisse: Em outras edições da Bikodisse, @s entrevistad@s relataram a importância da disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) em suas vidas. Com eram as aulas de CCN na época que você estudou no Pré-vestibular Steve Biko? Que importância essas aulas tiveram na elevação de sua autoestima e formação política?

Manuela Barbosa: Essa aula é muito especial! Para mim essa disciplina é tão importante quanto as outras necessárias para o vestibular.
No ano de 2004 tive o privilégio de ter Silvio Humberto como professor dessa disciplina, porém era muita informação nova que contrariava minha realidade e isso me fez entrar em conflito comigo, e até mesmo com os conteúdos que eram trabalhados, o que me fazia negar o que era apresentado.
Já no ano seguinte, como estava mais madura, pude não só ouvir o que era dito, mas também comecei um processo de pesquisa sobre algumas personalidades negras e isso foi de extrema importância para mim, sendo que foi através dessa investigação que adquiri criticidade a respeito da problemática racial.
Acredito que o CCN cria situações desafiadoras para vida, pois essa aula possibilita um processo de recriação do “eu”, mas um “eu” muito mais seguro e confiante em si mesmo, no entanto é necessário estar aberto para o novo e ir em busca também das suas verdades.

Bikodisse: Quais os principais motivos para a escolha do seu curso de graduação? O que motivou o seu interesse em ingressar na Universidade?

Manuela Barbosa: Na verdade não escolhi. Pensei em várias profissões como historiadora, jornalista, socióloga e advogada. Lembro-me de ter feito o vestibular para pedagogia por que a inscrição estava barata, mas nem sabia direito do que se tratava o curso. Tinha em mente que necessitava entrar na universidade por saber que era uma maneira de melhorar minha vida, pois a faculdade representava um acesso mais rápido ao mercado de trabalho e com muito mais qualidade.
Porém, hoje sei que nasci para ser pedagoga, amo minha profissão e só faço algo para aperfeiçoá-la. A educação transforma seres humanos.

Bikodisse: O Instituto Steve Biko tem a visão de constituir-se numa Instituição de Ensino Superior (IES) em 2012. Como você se vê nesse processo?

Manuela Barbosa: Parafraseando Martin Luther King, ouso-me a escrever que: Eu tenho um sonho de que, um dia, meus filhos estudarão em uma universidade onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim, pelo conteúdo de seu caráter. Isso me deixa muito mais feliz!
Posso denominar isso de um salto pedagógico que eu quero, que nós queremos. Um lugar que venha ao encontro de nossos anseios, ou seja, um sistema educacional que promova a formação de uma mentalidade social mais justa e que possibilite a formação de um conhecimento racial verdadeiro.
Poder fazer parte desse processo para mim é especial. Acredito que posso contribuir de diversas maneiras, seja ministrando aulas ou ajudando na construção do plano de trabalho , ou seja, quero e vou colaborar de alguma amaneira.

Bikodisse: Qual sua opinião sobre a Lei 10.639/03 e que tipo de avaliação pode fazer sobre sua implementação.

Manuela Barbosa: Acho de grande importância a implementação da Lei nº 10.639 no currículo das escolas públicas e privadas. É visível que a escola é indiferente à população negra, pois continuam sustentando uma história falsa pautada em um comodismo e uma aceitação a respeito da escravidão por parte da população negra, ou a todo momento tentam fazer com que os alunos acreditem que vivem em um país igualitário.
A Lei nº 10.639 surge para possibilitar a formação da identidade da população negra e com isso elevar a autoestima, pois saber que sua história foi marcada de luta e resistência têm forte significância não somente para a formação da população negra, mas também para a criança não negra, pois essa aprenderá a respeitar a diversidade histórica do país.
Contudo, acredito que só a implementação não basta. É preciso uma formação constante para os professores sobre a História e Cultura Afro-Brasileira e Africana e uma fiscalização também, pois nenhum educador é neutro e ao adentrar a sala de aula levo minhas verdades e meus valores também, por isso o educador precisa estar bem seguro sobre o que vai dizer.

Bikodisse: Como foi para você participar do Projeto Conexão Direta com o Futuro (parceria entre os Instituto Steve Biko e Nextel)? Que aprendizados pode nos contar sobre essa experiência?

Manuela Barbosa: Essa experiência para mim foi muito especial, pois foi através dessa que pude desenvolver-me enquanto profissional. Entrei no Instituto em 2009 na função de estagiária, mesmo ainda sendo estudante, as pessoas que faziam parte do processo confiavam muito em mim e tratavam-me com apreço.
No final de 2009 conclui a faculdade e não poderia mais ser estagiária daí confiaram-me à disciplina de “Acesso a Bens Culturais”, ministrando essa disciplina convivi com muitos alunos e pude reviver um pouco minha trajetória na Biko através da história e do desenvolvimento de cada um.
Foi por meio dessa confiança que aprendi a ser educadora e ter mais certeza no que faço enquanto profissional.

Bikodisse: Qual a contribuição da “Pedagoga Manuela” para a ONG Bahia Street?


Manuela Barbosa: No Bahia Street sou a pedagoga Manuela Barbosa, mas acima de tudo sou
Manuela Barbosa moradora de um bairro humilde, pertencente a família também humilde. Acredito que o importante nesse trabalho que desenvolvo é que muitas vezes o pessoal e o profissional caminham juntos, dessa forma consigo sentir melhor o que as educandas do projeto vivenciam, ou seja, a opressão.
Trabalhar no Projeto Bahia Street para mim é um presente. Observo e luto diariamente para tentar modificar através da educação a realidade de cada educanda. Não é uma tarefa fácil, já que o processo de segregação no Brasil foi muito perverso e nos fez acreditar que o problema é nosso e tentar reverter isso muitas vezes é frustrante e doloroso, pois requer muita sensibilidade e uma vontade extrema que dê certo.
Contudo, saber que já estive na mesma situação e que consegui mudar porque acreditaram em mim é muito mais forte do que qualquer problema e isso me impulsiona a continuar tentando, pois como diria Malcolm X : "O homem branco quer que os homens pretos permaneçam imorais, depravados e ignorantes. Enquanto permanecermos nessas condições, continuaremos a suplicar, e o homem branco nos controlará. Jamais poderemos conquistar liberdade, justiça e igualdade enquanto não estivermos fazendo por nós mesmos."